Mais de três décadas separam duas invernagens da família Klink: Amyr passou cerca de sete meses com o Paratii imobilizado no gelo da Antártica; Tamara Klink passou oito meses com o Sardinha 2 preso no mar congelado do Ártico groenlandês. A semelhança é tão evidente que parece uma competição entre pai e filha. Não foi.
Quando perguntaram a Tamara se ela havia ficado um mês a mais apenas para superar o pai, a resposta foi simples: “Eu não escolhi, quem escolheu foi o gelo.” Para mim, essa frase ajuda a entender as duas histórias: em uma invernagem, o calendário deixa de obedecer ao navegador e passa a obedecer ao ambiente.
O paralelo também revela algo mais interessante do que a coincidência dos números. Tamara cresceu ouvindo as histórias daquele inverno de Amyr e, décadas depois, transformou uma referência familiar em um projeto próprio. A relação entre os dois aparece tanto na história de Tamara Klink e Amyr Klink como pai e filha quanto na dedicatória de Bom dia, inverno e na influência de Amyr.
Tamara e Amyr Klink em 30 segundos
- Amyr Klink: partiu em 31 de dezembro de 1989 e passou cerca de sete meses imobilizado no gelo da Antártica durante uma expedição a bordo do Paratii.
- Tamara Klink: mais de três décadas depois, passou oito meses com o Sardinha 2 preso no mar congelado do Ártico groenlandês.
- O livro da invernagem de Tamara: Bom dia, inverno.
- O livro ligado à invernagem de Amyr: Paratii: Entre Dois Pólos.
- Cuidado com a confusão: Mar sem fim relata outra expedição de Amyr, uma circunavegação antártica realizada anos depois.
Continue esta história em livros
Se eu tivesse de escolher um livro para continuar esta história agora, começaria por Bom dia, inverno. É o relato de Tamara sobre os oito meses no Ártico. A edição física da Companhia das Letras tem 256 páginas, formato brochura e ISBN 978-85-359-4467-9.
Depois, eu seguiria por três caminhos:
- Paratii: Entre Dois Pólos, para chegar à expedição em que Amyr passou o inverno na Antártica;
- a comparação entre Bom dia, inverno e Mar sem fim, para entender duas experiências polares de pai e filha sem confundir as expedições;
- os livros sobre expedições polares, se o interesse principal estiver no gelo, na navegação e nos relatos de regiões extremas.
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O gelo escolheu o tempo: oito meses para Tamara, sete para Amyr
A aproximação mais direta entre as duas viagens está no tempo passado com os barcos imobilizados pelo gelo. Amyr partiu de Paraty em 31 de dezembro de 1989 a bordo do Paratii. Na Antártica, permaneceu meses sem poder simplesmente levantar âncora e partir.
A cronologia do próprio navegador registra sete meses imobilizado na Baía Dorian; sua biografia detalha esse período como sete meses e meio. Por isso, “sete meses” funciona como a forma arredondada que também aparece quando Tamara conta a história do pai.
Mais de trinta anos depois, Tamara fez algo parecido no extremo oposto do planeta. Em vez da Antártica, escolheu a Groenlândia. Em vez do Paratii, estava no Sardinha 2. E o período de invernagem chegou a oito meses.
| Tamara Klink | Amyr Klink | |
|---|---|---|
| Região | Ártico groenlandês | Antártica |
| Barco | Sardinha 2 | Paratii |
| Invernagem | 8 meses | Cerca de 7 meses |
| Livro relacionado | Bom dia, inverno | Paratii: Entre Dois Pólos |
Por que Tamara ficou um mês a mais?
Não houve uma decisão de superar o tempo do pai. Quando a diferença foi apresentada a Tamara como uma espécie de provocação familiar, ela explicou que nem sabia exatamente quanto tempo Amyr havia ficado imobilizado.
“Eu não escolhi, quem escolheu foi o gelo.”
A resposta é especialmente boa porque desmonta a ideia de recorde. Uma invernagem não funciona como uma prova cronometrada: congelamento e degelo determinam parte fundamental do calendário.
Ártico e Antártica: experiências parecidas em extremos opostos
As duas histórias são parecidas na relação com o gelo, mas acontecem em geografias muito diferentes. Como Tamara explicou ao falar sobre a própria viagem, a Antártica é um continente cercado por oceano. O Ártico, ao contrário, é um oceano cercado por terras.
Essa diferença parece escolar quando colocada em uma frase, mas muda completamente a experiência de quem está ali. Na Groenlândia, Tamara entrou em contato com comunidades locais e marinheiros, aprendeu maneiras de observar e medir o gelo e preparou o barco para permanecer meses em um ambiente no qual o mar se transformaria em superfície congelada.
O que significa invernar em um barco?
Para os navegadores polares, invernar significa atravessar o inverno em altas latitudes, muitas vezes com o barco imobilizado pelo congelamento do mar. Historicamente, nem sempre isso foi planejado: diversas expedições acabaram presas porque não conseguiram sair antes da chegada do gelo.
No caso de Amyr e Tamara, a imobilização fazia parte do projeto. Isso muda a preparação, mas não elimina o risco. O barco precisa suportar frio, pressão do gelo, isolamento e meses de autonomia.
Há também uma inversão curiosa. Numa travessia oceânica, o objetivo costuma ser avançar. Na invernagem, boa parte do projeto depende justamente da capacidade de ficar.
Tamara não repetiu a viagem do pai
A história de Amyr foi uma referência para Tamara, mas a expedição dela não é uma reprodução da viagem paterna. Mudaram o oceano, o barco, a época, a tecnologia, a rota, a preparação e também a pessoa que vivia a experiência.
O ponto de partida, porém, aparece desde a infância. Tamara contou que Amyr voltava das viagens e narrava às filhas histórias de animais, gelo, ventos e dos próprios sistemas do barco, que ganhavam nomes e se tornavam quase personagens.
É justamente essa memória que ajuda a explicar a dedicatória de Bom dia, inverno a Amyr Klink: a vontade de fazer a viagem é ligada às perguntas que surgiram quando Tamara ainda era criança e ouvia o pai falar de seu inverno no mar gelado.
A “graça de vir depois”
Tamara descreve essa relação menos como imitação e mais como acúmulo de conhecimento. Ela reconhece que consegue navegar com barcos pequenos e relativamente simples porque outros navegadores vieram antes e descobriram o que era realmente indispensável.
É uma ideia que aparece em sua expressão sobre a “graça de vir depois”: cada geração recebe referências, erros, soluções e limites já explorados pela anterior e pode tentar outro caminho a partir daí.
De pai e filha a colegas de invernagem
Depois do Ártico, Tamara passou a falar da relação com Amyr também como uma espécie de relação entre colegas. É uma mudança sutil: o pai continua sendo a referência da infância, mas agora existe uma experiência polar que os dois conseguem reconhecer no outro.
Há inclusive espaço para provocação. Tamara conta que Amyr brinca com a precariedade de seus barcos. Ela não nega a simplicidade das embarcações; ao contrário, associa essa escolha à possibilidade de realizar projetos complexos sem acrescentar sistemas que não considera indispensáveis.
Para entender esse vínculo para além das duas invernagens, vale seguir para Tamara Klink e Amyr Klink: livros, viagens e a relação entre pai e filha. Para conhecer a trajetória dele separadamente, organizei também um guia sobre quem é Amyr Klink, suas viagens e seus livros.
O que a experiência de Tamara acrescenta a essa história
A experiência de Tamara introduz questões que não aparecem da mesma maneira nos relatos de navegação de uma geração anterior. Uma delas é o que significa ser uma mulher sozinha em um espaço onde, durante meses, praticamente desaparecem as expectativas sociais ligadas ao gênero.
Ela descreve a solidão como uma situação em que deixou, por algum tempo, de ser definida como mulher diante de outra pessoa. Sem alguém olhando, julgando ou esperando determinado comportamento, passou a pensar em si simplesmente como o ser humano responsável por continuar vivo, cuidar do barco e decidir o que fazer a seguir.
Essa dimensão aparece com mais profundidade no texto sobre o que muda quando uma mulher fica sozinha e deixa de ser definida pelo gênero.
O perigo não desaparece quando tudo vira rotina
Outro ponto importante da experiência de Tamara é a transformação do medo. Em determinado momento da invernagem, ela já estava tão habituada ao gelo que o ambiente parecia seguro. Foi justamente nessa fase que caiu na água ao pisar numa borda que cedeu.
Ela conseguiu sair e retornar ao barco, mas o episódio recolocou o risco no centro da experiência. É um contraste que reaparece em outras falas da navegadora: não se trata de eliminar o medo, e sim de fazer com que ele ajude a perceber perigo, cansaço e excesso de confiança.
Qual livro conta cada uma dessas histórias?
Bom dia, inverno é o livro para acompanhar a invernagem de Tamara; Paratii: Entre Dois Pólos é o título ligado à grande expedição de Amyr iniciada em 1989. Essa distinção evita uma confusão fácil com outro livro muito conhecido de Amyr: Mar sem fim.
Bom dia, inverno: os oito meses de Tamara no Ártico
A Companhia das Letras apresenta Bom dia, inverno como o relato dos oito meses em que Tamara viveu sozinha em um pequeno veleiro preso no mar congelado do Ártico groenlandês.
A edição física publicada em maio de 2026 tem 256 páginas, acabamento brochura e ISBN 978-85-359-4467-9. O livro trabalha a experiência de isolamento, o inverno polar, a relação com a natureza e as reflexões provocadas por uma rotina em condições extremas.
Paratii: Entre Dois Pólos: a viagem da invernagem de Amyr
Paratii: Entre Dois Pólos acompanha a longa expedição iniciada no fim de 1989. Segundo a cronologia oficial de Amyr, a viagem durou 642 dias e incluiu a invernagem antártica antes de o navegador seguir em direção ao Ártico.
A edição catalogada pela Companhia das Letras tem 264 páginas, formato brochura e ISBN 978-85-716-4282-9.
E onde entra Mar sem fim?
Mar sem fim não é o relato dos sete meses em que Amyr ficou imobilizado no gelo. O livro registra outra expedição, realizada anos depois: a circunavegação antártica iniciada em 1998.
Nessa viagem, Amyr passou 141 dias no mar e percorreu a região da Convergência Antártica. É uma obra naturalmente próxima de Bom dia, inverno por causa do ambiente polar e da navegação solitária, mas o projeto é diferente.
Por isso, na comparação entre Bom dia, inverno e Mar sem fim, o mais útil é observar dois relatos polares de gerações diferentes — e não tratar os dois livros como relatos da mesma espécie de invernagem.
Três décadas depois, o próprio Ártico já não é o mesmo
A comparação entre as gerações Klink também expõe uma transformação do ambiente polar. Na travessia mais recente de Tamara pela Passagem Noroeste, ela chamou atenção para a quantidade de mar aberto encontrada em áreas que relatos de navegadores mais antigos descreviam como muito mais tomadas pelo gelo.
Ela relatou que esperava encontrar gelo em uma parcela muito maior do percurso e associou a diferença às mudanças climáticas. Também comparou alguns lugares do Ártico com rotas conhecidas pelo pai décadas antes: áreas que antes impunham barreiras de gelo hoje podem apresentar condições muito diferentes.
Isso torna especialmente interessante acompanhar a nova travessia de Tamara Klink pela Passagem Noroeste. A viagem amplia a história iniciada pela invernagem e mostra que o gelo não é apenas cenário: ele também registra mudanças que alteram a própria navegação.
Duas invernagens, mas duas trajetórias próprias
O paralelo entre Tamara e Amyr Klink funciona melhor quando não transforma a filha em repetição do pai. Amyr forneceu histórias, referências e um exemplo vivo de que uma invernagem polar era possível. Tamara recebeu esse repertório, mas precisou construir outro barco, outra preparação e outra experiência.
Os sete meses de Amyr na Antártica e os oito meses de Tamara no Ártico criam uma simetria bonita, mas o dado mais revelador não é quem ficou mais tempo. É a passagem de uma história contada por um pai à filha para uma experiência que os dois finalmente conseguem reconhecer como navegadores.
Se essa combinação de gelo, isolamento, navegação e relato pessoal é justamente o que desperta seu interesse, eu seguiria por outros livros sobre expedições polares.
Perguntas frequentes
Quanto tempo Tamara Klink ficou sozinha no Ártico?
Tamara Klink passou oito meses durante a invernagem no Ártico groenlandês, vivendo no Sardinha 2 enquanto o barco permanecia cercado pelo mar congelado. Essa experiência é o centro de Bom dia, inverno.
Quanto tempo Amyr Klink ficou preso no gelo da Antártica?
A página oficial das expedições de Amyr registra sete meses imobilizado na Baía Dorian. A biografia oficial detalha o período como sete meses e meio, por isso “cerca de sete meses” é a forma mais simples de resumir a invernagem.
Tamara Klink decidiu ficar um mês a mais que Amyr Klink?
Não. Quando essa comparação foi feita em entrevista, Tamara disse que nem sabia exatamente quanto tempo o pai havia ficado e resumiu a diferença dizendo que quem escolheu foi o gelo.
Onde Tamara Klink passou o inverno no Ártico?
Tamara passou a invernagem na Groenlândia, com o barco ancorado em um fiorde enquanto o mar ao redor congelava. A experiência exigiu preparação específica do Sardinha 2 para frio, isolamento e longa autonomia.
Qual livro conta a invernagem de Tamara Klink?
O livro é Bom dia, inverno, publicado pela Companhia das Letras em 2026. A edição física tem 256 páginas e ISBN 978-85-359-4467-9.
Qual livro de Amyr Klink conta a viagem da invernagem na Antártica?
É Paratii: Entre Dois Pólos. A viagem começou no fim de 1989, incluiu a longa permanência de Amyr na Antártica e depois prosseguiu em direção ao Ártico.
Mar sem fim conta os sete meses de Amyr no gelo?
Não. Mar sem fim relata outra expedição de Amyr Klink, a circunavegação antártica iniciada em 1998. Para a viagem que inclui a invernagem de cerca de sete meses, o título relacionado é Paratii: Entre Dois Pólos.