Os três tipos de diário usados por Tamara Klink durante a viagem

Tamara Klink não manteve um único diário durante a viagem ao Ártico: ela separou a experiência em três registros diferentes — um diário para os outros, um diário pessoal e um diário de sonhos. A distinção não era apenas de assunto. Cada um tinha destinatário, linguagem e função próprios.

Os registros acompanharam a invernagem de oito meses na Groenlândia que mais tarde seria narrada em Bom dia, inverno, livro de não ficção de Tamara Klink. Para quem se interessa pela relação entre viagem e escrita, esse é o principal atrativo: perceber que uma mesma experiência podia produzir versões muito diferentes dependendo de para quem ela escrevia.

Eu faria apenas uma distinção importante: Bom dia, inverno não deve ser tratado como uma simples transcrição desses cadernos. A própria autora contou que passou três anos trabalhando no livro até encontrar tom, organização e forma. Para conhecer a viagem já transformada em narrativa publicada, porém, ele é hoje a escolha mais direta.

Os três diários em 1 minuto

  • Diário para os outros: era escrito pensando em quem estava distante da experiência e exigia explicar aquilo que para Tamara já parecia evidente.
  • Diário pessoal: era escrito para ela mesma e funcionava como espaço de diálogo interno e elaboração de decisões.
  • Diário de sonhos: era anotado no celular logo ao acordar, antes que as imagens dos sonhos desaparecessem.
  • Eram separados: Tamara explicou que os três registros ficavam fisicamente separados.
  • O livro veio depois: transformar a experiência em Bom dia, inverno exigiu um trabalho de escrita e reorganização que durou três anos.

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Minha escolha principal para esta pauta é Bom dia, inverno. É o livro ligado à invernagem de oito meses no Ártico e, portanto, o caminho mais próximo para quem chegou aqui interessado nos diários dessa viagem.

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Quais eram os três diários de Tamara Klink durante a viagem?

Eram um diário para os outros, um diário pessoal e um diário de sonhos. Tamara descreveu essa divisão ao falar sobre como a escrita entrava em sua rotina de navegação e de isolamento.

Ela não tratava os três como versões intercambiáveis da mesma coisa. Ao contrário: escrever para outra pessoa exigia um tipo de linguagem; escrever para si mesma tinha outra função; registrar sonhos captava questões que nem sempre apareciam de forma consciente nos demais textos.

DiárioPara quemFunção principalComo era registrado
Para os outrosLeitores e pessoas fora da viagemComunicar e explicar a experiênciaParte dos textos foi enviada à distância e publicada durante a viagem
PessoalEla mesmaDiálogo interno e elaboração de decisõesNo papel
De sonhosEla mesmaRegistrar sonhos e questões menos conscientesNo celular, logo ao acordar

O diário para os outros

O diário para os outros precisava transformar uma experiência solitária em algo compreensível para quem não estava no barco. Tamara explicou que essa escrita era menos autorreferenciada: ela precisava explicar situações que para si já pareciam óbvias e tentar imaginar o ponto de vista de quem receberia aquelas palavras.

Durante a invernagem, parte desses textos foi enviada por comunicação via satélite. A artista Maria Klabin recebia os registros e respondia a eles por meio de pinturas. Alguns textos e imagens foram publicados nas redes sociais, mas Tamara permaneceu sem acompanhar normalmente a reação do público.

Isso produzia uma situação incomum: havia um texto destinado aos outros, mas quase não havia o retorno que normalmente participa de uma conversa. A escrita atravessava a distância; a resposta, em boa medida, ficava fora do alcance dela.

O diário pessoal

O segundo diário era escrito para ela mesma. Em vez de organizar a experiência para um leitor distante, ele podia funcionar como um diálogo interno, inclusive nos momentos em que havia alguma coisa difícil de encarar.

Tamara chegou a explicar que percebe a necessidade de escrever justamente quando não quer escrever. A resistência pode indicar que existe uma decisão, um sentimento ou um pensamento sendo empurrado para fora da atenção.

Esse detalhe muda bastante a maneira de entender seus diários de viagem. Eles não servem apenas para documentar onde o barco estava ou o que havia acontecido durante o dia. Pelo menos um deles também funcionava como instrumento para organizar aquilo que acontecia dentro dela.

O diário de sonhos

O terceiro registro era um diário de sonhos, mantido no celular. A escolha do aparelho tinha uma razão prática: ao despertar ainda sonolenta, procurar papel, caneta e iluminação poderia ser tempo suficiente para perder partes do sonho.

Por isso, Tamara recorria ao telefone, que já oferecia luz e permitia registrar rapidamente o que lembrava. Os sonhos podiam envolver animais, problemas com o barco, gelo, decisões sobre o local da invernagem e outros elementos da viagem.

O mais curioso é que ela passou a enxergar nesse diário perguntas que ainda não estavam claras no registro consciente. Em alguns momentos, o diário pessoal indicava segurança sobre uma decisão enquanto os sonhos continuavam colocando essa escolha em dúvida.

Por que Tamara Klink registrava a viagem de três maneiras?

Porque destinatários diferentes produziam escritas diferentes. O diário voltado aos outros precisava comunicar; o diário pessoal podia investigar; e o de sonhos preservava uma camada que surgia antes mesmo de ela organizar racionalmente a experiência.

Eu acho essa distinção especialmente útil para compreender a obra de Tamara Klink porque impede uma simplificação comum: imaginar que existe primeiro uma viagem, depois um diário fiel aos fatos e, por fim, um livro que apenas copia esse material.

O processo descrito por ela é mais complexo. A experiência muda quando vira diário. O diário muda conforme seu destinatário. E o material volta a mudar quando precisa assumir a forma de um livro destinado a leitores que não estavam no fiorde, não viram o gelo e não viveram aqueles meses de isolamento.

O diário público precisava explicar o que ela já conhecia

Quando escrevia para os outros, Tamara precisava voltar a informações que para ela já faziam parte do cotidiano. O desafio era deslocar a perspectiva: aquilo que se tornara banal depois de meses no barco podia continuar estranho para alguém no Brasil.

Essa diferença ajuda a explicar por que o diário destinado ao público não podia ser igual ao texto pessoal. Um precisava construir pontes; o outro não precisava justificar cada referência para ser compreendido pela própria autora.

O diário pessoal não precisava chegar aos leitores

No diário pessoal, a escrita podia permanecer privada. Isso permitia que o registro tivesse uma função menos narrativa e mais ligada à consciência das próprias escolhas.

É também uma boa chave para conhecer melhor a trajetória de Tamara Klink: navegar e escrever aparecem repetidamente lado a lado, mas não necessariamente com a mesma finalidade em todas as situações.

Os sonhos traziam perguntas que ainda não estavam claras

O diário de sonhos acrescentava outra camada. Em entrevista posterior, Tamara resumiu a diferença dizendo, em essência, que os registros descritivos traziam fatos, enquanto os sonhos frequentemente traziam questões.

No início do inverno, por exemplo, apareciam dúvidas relacionadas à escolha do lugar. No final, seus sonhos ainda podiam colocá-la novamente diante de preparativos e conselhos recebidos antes da partida, como se uma parte dela ainda não tivesse assimilado que a viagem já havia sido realizada.

Quando escrever uma experiência também muda a lembrança dela

Tamara também percebeu um efeito menos óbvio dos diários: escrever podia alterar a forma como ela se lembrava do que tinha vivido. Ao transformar uma experiência em palavras, aquelas palavras podiam passar a ocupar o lugar da lembrança original.

Ela descreveu esse processo de maneira inquietante ao falar dos registros feitos para outras pessoas. Depois de escrever determinado acontecimento, a recordação começava a se confundir com a versão que havia sido colocada no texto.

Isso cria um paradoxo bonito e incômodo: o diário existe para preservar alguma coisa, mas a forma usada para preservar também interfere no que permanecerá.

É uma questão especialmente importante quando esses registros começam a alimentar uma obra posterior. O livro fixa uma narrativa mais organizada e comunicável, mas essa mesma organização precisa selecionar, retirar, aproximar e ordenar aquilo que na experiência aconteceu de forma muito menos arrumada.

Dos diários ao processo de escrever Bom dia, inverno

Transformar a viagem em Bom dia, inverno levou três anos. Segundo Tamara, uma das dificuldades foi justamente descobrir qual deveria ser o tom do livro e quanto de sua vida interior deveria entrar no relato.

As primeiras versões faziam mais idas e vindas entre preparação, inverno e reflexões. Ao longo do trabalho editorial, a organização se tornou mais cronológica e alguns caminhos muito abstratos deram lugar novamente à experiência concreta da viagem.

Esse processo é aprofundado em por que Tamara Klink levou três anos para escrever Bom dia, inverno. É a continuação mais direta para quem se interessa menos pelos perigos da expedição e mais pela transformação da experiência em literatura.

Os diários serviram de base para o livro?

Os registros pertencem ao processo de documentação e escrita da viagem, mas eu evitaria dizer que Bom dia, inverno seja simplesmente a publicação dos três diários. A própria descrição do longo processo de reescrita mostra que houve seleção, reorganização e procura por um tom específico.

Por isso, quem deseja os registros exatamente como foram produzidos durante a viagem não deve presumir que encontrará três cadernos reproduzidos integralmente dentro do livro. Não encontrei confirmação de que essa seja a estrutura da edição publicada.

Escrever também fazia parte da continuidade das viagens

Os livros de Tamara Klink não ficaram isolados das viagens seguintes. Ela contou que os recursos obtidos com Nós ajudaram a financiar o Sardinha 2, barco usado no projeto posterior.

Essa relação é interessante porque cria um movimento circular: a viagem produz escrita, a escrita chega aos leitores e o livro pode contribuir materialmente para que outra viagem exista. A história é detalhada em como o livro Nós ajudou Tamara Klink a financiar seu segundo barco.

Também ajuda a entender por que reduzir os livros a lembranças de aventuras seria pouco. Na fala de Tamara, navegar e escrever aparecem como atividades que se alimentam mutuamente.

Os livros eram uma fuga durante o isolamento?

Não é assim que Tamara define a relação com os livros. Quando perguntada se a literatura e as caminhadas funcionavam como válvulas de escape durante a invernagem, ela rejeitou essa ideia.

Para ela, ler e caminhar já podiam ser o próprio destino, e não um instrumento para escapar do lugar onde estava. Essa diferença ajuda a compreender também a importância da escrita durante a viagem: registrar não era necessariamente sair da experiência, mas outra maneira de permanecer nela.

Esse aspecto aparece com mais espaço em por que Tamara Klink diz que os livros não são uma fuga.

Conclusão: três diários para uma experiência que não cabia em uma única versão

Os três diários de Tamara Klink mostram que registrar uma viagem não significa apenas anotar o que aconteceu. Ela separou a escrita conforme aquilo que precisava fazer com as palavras: comunicar aos outros, conversar consigo mesma ou preservar sonhos antes que desaparecessem.

O resultado é especialmente interessante porque os registros nem sempre concordavam. Uma decisão podia parecer resolvida no diário pessoal e continuar sendo questionada nos sonhos. Aquilo que era evidente para ela precisava ser explicado novamente quando escrevia para outras pessoas.

Para quem quer seguir dessa escrita até a obra publicada, eu começaria por Bom dia, inverno. Para voltar a uma etapa anterior das navegações, Nós e Mil milhas ajudam a percorrer outros momentos da relação entre viagem e literatura.

Perguntas frequentes

Quais eram os três tipos de diário de Tamara Klink?

Tamara Klink mantinha um diário para os outros, um diário pessoal e um diário de sonhos. Ela explicou que eram registros separados e que cada um tinha uma função diferente.

Os três diários eram separados?

Sim. Tamara afirmou que os diários eram fisicamente separados e ficavam em lugares diferentes. Essa separação acompanhava também a diferença de destinatário e de linguagem entre eles.

Onde Tamara Klink escrevia o diário de sonhos?

O diário de sonhos era registrado no celular. Ela preferia o aparelho porque podia anotar rapidamente ao acordar, usando a própria iluminação da tela, antes de esquecer o sonho.

Por que Tamara Klink mantinha um diário para si mesma?

O diário pessoal funcionava como uma forma de diálogo interno e de tomada de consciência. Tamara contou que, em alguns momentos, a própria falta de vontade de escrever podia indicar que havia algo que ela estava evitando enfrentar.

Os diários serviram de base para os livros de Tamara Klink?

Os diários registraram a experiência que posteriormente foi transformada em livro, mas não convém tratar Bom dia, inverno como uma simples reprodução desses registros. Tamara passou três anos trabalhando no texto, incluindo mudanças de tom e organização.

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