Adaptação ou inserção? O momento de entrada dos bebês na creche

Adaptação ou inserção? O momento de entrada dos bebês na creche

Como os bebês vivenciam seu processo de entrada na creche?

(Texto adaptado do Livro Educar na Creche/ Capítulo 3/ Lucilaine Reis)


Da aventura que foi nossa vivência com os bebês, muito material foi produzido. Para demonstrar a riqueza do que foi essa experiência, transcrevemos a seguir episódios que vivenciamos no processo de inserção na creche como reflexão e análise do tema abordado:


Izadora é miudinha. É menor que todos os outros bebês e parece mais nova também. Relaciona-se exclusivamente com os adultos, evitando outros bebês. A cada dia da semana, escolheu um colo como sendo dela. No primeiro dia fiquei olhando Isadora vagar perdida e sozinha pela creche. Era como se estivesse numa terra de gigantes. Izadora não fala. Mas seus gestos e expressões faciais são muito claros. Há toda uma conversação em seus olhos e seus sorrisos. Na quinta-feira Izadora escolheu meu colo como seu lugar favorito. Ajudei-a a tomar café, depois fomos para o pátio. No início ela não queria brincar. Queria ficar no colo. Então, eu sentei com ela no chão, e, por coincidência, uma das professoras colocou uma caixa com brinquedos perto. Ficamos eu e Izadora brincando com uma boneca de Menina Super-Poderosa. Ela ria muito quando eu fazia a boneca voar. Ela foi pegando outros personagens da caixa para que eu fizesse o som correspondente a cada um. Vendo nossa brincadeira (e ouvindo nossas risadas), outros bebês sentaram-se no entorno e também começaram a tirar personagens da caixa. Eu dizia o que eram e fazia um som como se eles estivessem realizando alguma ação. Mayara tirou uma baleia da caixa e entregou-me, eu disse: “É uma baleia”, e fiz o som da baleia nadando. Ela me olhou, pegou a baleia. Eu ri bastante, e os bebês que estavam em volta também. Ela levantou-se e foi embora levando consigo a baleia, que, balbuciando, dizia ser peixe. Segundos depois, eu percebi que ela tinha feito o mesmo com uma professora que ria muito e dizia: “Tá certo, tá certo, é peixe, não é baleia”. A brincadeira continuou e de repente estávamos brincando de comidinha. Havia vários utensílios na caixa. Marcos pegou uma canequinha, aproximou da minha boca e balbuciou, querendo dizer café. Eu fingi que bebi o café e disse que estava gostoso. Outro menino trouxe um pratinho e disse: “Cobida”. Eu comi e disse que estava gostosa. Assim quatro crianças trouxeram um utensílio de cozinha e me alimentaram. Até que Ana Carla, uma criança maiorzinha, colocou próximo a minha boca uma pazinha dessas de areia e ficou me olhando sem dizer nada. Eu achei que a pá fosse uma colher, fiz que comi e disse que estava gostoso. Ela me olhou séria e disse: “É lixo”. Eu fiz cara de susto e coloquei a mão na boca. Ela riu, eu ri, todos riram. Continuamos a brincar, mas, sempre que ela me servia alguma coisa, eu perguntava primeiro o que era (rindo) (Diário de Campo). 


Esse episódio nos convida a duas reflexões. A primeira é quanto à capacidade comunicativa de Izadora. Desde o primeiro dia, Izadora chamou a atenção dos adultos com seu jeito pequenininho e frágil. Em meio aos outros quinze bebês de seu grupo, foi a que mais ganhou colo. Ela tinha um jeito muito especial de chamar atenção dos adultos. Alguém que a olhasse por um instante poderia imaginar que ela estivesse sempre chorando, mas percebemos que ela não chorava o tempo todo e que, diferentemente de outros bebês, seu choro não parecia de medo, de insegurança, de cansaço ou de saudades. Ela andava com certa tranquilidade por um período e, quando precisava/desejava atenção, localizava/escolhia algum adulto, então, chorava bastante, mas, ao perceber que um adulto a olhava, ela sorria para ele em meio ao choro e, se o olhar fosse correspondido, esticava-lhe os braços. Diversas vezes vimos o sorriso iluminado de lágrimas de Izadora a seduzir os adultos de seu entorno. Assim, se em um primeiro momento Izadora parecia a mais frágil e a menos “amadurecida” de todos os bebês, logo se mostrou bastante competente em comunicar-se, estabelecer seus desejos/necessidades e lutar por eles com os recursos comunicativos que possuía. 
Refletindo sobre essas questões, pode-se reconhecer a importância do papelo do educador no processo de adaptação dos bebês na creche. Em diversas culturas, os adultos reproduzem espontaneamente as emoções que percebem no rosto dos bebês (o bebê ri, o adulto ri de volta, o bebê abre a boca, o adulto abre a boca, o bebê arregala os olhos, o adulto arregala os olhos), a ponto de tornarem-se o próprio espelho emocional dos bebês. Voltando o foco para os bebês na creche, podemos afirmar que esses, desde o início da chegada na instituição, olhando no rosto do adulto e interagindo com ele, aprendem a identificar os próprios sentimentos e também os sentimentos expressos no rosto de um adulto, a tal ponto que um bebê é capaz de perceber se um adulto está triste e o consola, da mesma maneira que fazem com ele. (...) Resgatando as intencionalidades dos gestos educativos, podemos nos perguntar de que modo a creche pode se organizar para permitir/possibilitar que os bebês construam laços comunicativo-afetivos desde os primeiros momentos de sua entrada na instituição? Ou seja, como planejar a inserção para que ela ocorra da melhor maneira possível sem a pretensão de antecipar a reação dos bebês? São muitos os desafios que se apresentam aos profissionais do campo da infância na atualidade. Nossa contribuição nessa área visa reforçar a necessidade de conhecer as lógicas infantis, os modos de ser e estar dos bebês no mundo. Enfim, a professora de bebês precisa ser sensível às crianças, ao que falam e ao que não falam, ao que suas palavras dizem, mas também as nuanças de sua entonação, às suas pausas, aos seus gestos, aos seus olhares, aos seus pequenos sorrisos.

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