Sala de aula é lugar de fazer teatro?

Sala de aula é lugar de fazer teatro?

(Texto de Taís Ferreira, na  obra Teatro e dança nos anos iniciais, cap. 1).


(...) Se a escola é lugar de se fazer teatro? Sim, com certeza, é. Desde os jesuítas, que catequisaram, educaram e aculturaram populações indígenas no século XVI, até as contemporâneas pedagogias do teatro baseadas nos jogos e processos criativos e não mais nos produtos (os conhecidos “teatrinhos de fim de ano”), a linguagem teatral permeou (e permeia) o cotidiano das escolas brasileiras. A maior parte das crianças, no Brasil, tem seus primeiros contatos com a linguagem teatral na escola, seja fazendo teatro, seja assistindo a algum espetáculo teatral (FERREIRA, 2010). As práticas teatrais podem acontecer em diversos espaços, sendo que o palco é só mais um espaço para a existência do teatro e não o único. Para tanto, podemos lembrar-nos dos folguedos e danças folclóricas que acontecem nas ruas, terreiros e praças, das brincadeiras infantis que aconteciam nas ruas de chão batido e, agora, ocorrem nos pátios das escolas e dos condomínios asfaltados, do teatro de rua e das manifestações contemporâneas de performances urbanas, por exemplo. Todas essas atividades humanas são similares ou análogas ao teatro organizado, tal qual o concebemos no mundo ocidental, com atores, espectadores, elementos cênicos e uma história a ser contada, representados em um palco diante de uma plateia. Essas manifestações lúdicas e simbólicas estão na base do teatro: teatro é jogo, é troca entre humanos, entre espectadores e atores, entre atores e atores que jogam, encenam, brincam (seriamente) em cena. Tal como “brincam seriamente” as crianças em seus momentos de faz de conta. O que torna um espaço teatral são as ações empreendidas nele: o teatro se dá em um espaço simbólico que é construído pela ação dos atores-jogadores, daqueles que participam do jogo teatral. Dessa forma, a sala de aula pode se transformar em um espaço de jogo, em um espaço-tempo de criação teatral, onde a imaginação, o corpo e a ação dos alunos estejam integrados na construção de novos saberes e competências expressivas. E essa é a proposta que aqui queremos expor: praticar jogos teatrais, fazer teatro por meio do jogo e não, necessariamente, do texto dramático, exercitar processos criativos por meio de atividades dramáticas pode ser muito mais produtivo do que o “teatrinho” em que as crianças representam, têm “papéis” e são “dirigidas” pelos professores.
É claro que, se houver o desejo das crianças de compartilhar o fruto e os resultados de seus processos criativos na forma de uma apresentação teatral, isso não deve ser tolhido e nem desestimulado. Mas é importante que haja a vontade de as crianças mostrarem seu trabalho aos colegas ou mesmo a pais, professores e comunidade, sem exibicionismos ou aparatos cênicos excessivos, mas incentivando a autoestima que pode ser propiciada por uma experiência em arte-educação bem conduzida, focada no crescimento e na aprendizagem dos alunos durante os processos de criação, e entendendo o produto espetacular como um momento específico desse processo e não como um objetivo único e final das experiências teatrais em sala de aula. Infelizmente, podemos relatar luxuosas apresentações escolares de instituições de ensino da rede privada que divulgam os espetáculos dos alunos como eventos artísticos profissionais na mídia, alugando teatros, contando com figurinistas e cenógrafos, enfim, acessando todo um aparato cênico e uma concepção do teatro como lugar de exibição e de valorização da visibilidade da escola e dos alunos, ou seja, talvez uma “jogada de marketing” que visa angariar mais “clientes” para a “empresa”. Isso acaba por acarretar uma visão equivocada da função da arte e do ensino do teatro, desvalorizando tanto processos criativos como o espaço de expressão das crianças, calcando esses eventos no exibicionismo e na espetacularização vazia de sentidos estéticos e de experiências. E, muitas vezes, pais e professores são coniventes com essas situações, justamente por desconhecerem o potencial e as funções da arte na vida e nas relações de ensino-apredizagem na formação de seus filhos. Em medida menor (com aparatos menos dispendiosos e com muito TNT, ousaria dizer), as escolas públicas também cometem esse mesmo equívoco. E o que trago aqui, antes de ser um julgamento, é a exposição de uma realidade, de fatos corriqueiros nas programações das atividades escolares anuais de escolas de todo país que acabam sendo entendidas como “o teatro nas escolas”. Gostaria de frisar que o teatro na escola pode ser muito, muito mais! Expor os alunos de forma a obrigá-los a integrar elencos de montagens escolares pode ser desestimulante e até mesmo frustrante para as crianças. Assim, há diversos elementos da linguagem teatral que podem (e devem) ser desenvolvidos nas escolas e que serão potentes estimuladores das capacidades de expressão oral, escrita e corporal desses alunos. No entanto, é desejável que aconteça de forma processual e gradual, em que, paulatinamente, por meio do exercício de jogos teatrais, da elaboração criativa de elementos cênicos, da apreciação de espetáculos e manifestações cênicas diversas, as crianças possam construir significados e sentidos pela apreensão desses conteúdos e do conhecimento desses elementos componentes das linguagens cênicas.
O teatro é uma linguagem que envolve diversas linguagens:

– plástica (cenários, figurinos, adereços, iluminação, imagem);
– sonora (ruídos, músicas, trilhas, voz do ator);
– verbal (texto, letras de músicas e falas) e
– cinestésica (o corpo do ator e seus movimentos, gestos e ações no espaço-tempo).

(...)

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