Manual do Professor /Yvy Porã Porau / PNLD LITERÁRIO 2018

Manual do Professor /Yvy Porã Porau / PNLD LITERÁRIO 2018

Sobre a obra

A história deste livro se passa em Yvy Porã, um povoado indígena onde viviam pessoas vindas de várias aldeias e que foram perdendo seus parentes ao longo dos anos. Com o tempo, devido a uma crença espalhada na região, o que antes era abundante passou a ser para eles pouco e escasso. Quase nada tinham, quase nada sabiam, quase nada queriam, nem mesmo conseguiam mais ter seus filhos. 
A narrativa do conto se desenvolve em sete capítulos:

YVY RUXÃ’I conta sobre um povo antigo que vivia numa boa terra chamada Yvy Porã, mas na qual havia uma grande tristeza porque haviam perdido muitos filhos por doenças e guerras na defesa de suas terras. O número de pessoas do povoado foi diminuindo, e outros povos vieram juntar-se a elas, mas todos ainda choravam o passado e acabaram recolhendo-se a suas famílias. Nada parecia crescer ou florescer por ali. E aquela terra boa acabou sendo chamada de Yvy Ruxã’i, que significa terra do bem pouquinho. Aquele povoado pouco tinha e vivia entre contados risos e tristezas, mas ainda sonhava com as velhas histórias dos seus avós, dos tempos de fartura e felicidade.
O SONHO DE JACI conta sobre os jovens Jaci e Rayra, que viviam no povoado. Eles se amavam muito, mas há dez anos não tinham filhos assim como as outras mulheres do povoado. Jaci era uma grande sonhadora e se perguntava se a vida teria algo mais, se teriam alimentos e uma vida melhor. Foi num dos seus sonhos, que parecia real, que ela sonhou que chegava à janela e conversava com uma grande abelha, maior do que o comum, e a abelha lhe perguntava sobre as crianças da aldeia. Onde estavam? Jaci contou seu sonho a Rayra, seu amado esposo, que lhe disse para ficar atenta, pois ele já havia visto essa abelha e ela parecia estar trazendo uma mensagem.
EIRAPU’A conta sobre a chegada das abelhas à aldeia. Jaci, chegando em casa depois de trabalhar na roça, ouve um zumbido muito forte e um enxame de abelhas entre a palha da oca no telhado. Nunca havia visto tantas abelhas assim... Elas passaram a vir todos os dias, durante quatro semanas. Na quinta semana não voltaram mais, mas deixaram sinais por onde passaram: o mel. Então, Jaci sonhou novamente com a Eiruba (abelha-rainha) e muitas outras abelhas. Em sonho, elas lhe disseram: – Agora, mulher, mboguata! Faça o mel andar!
IRAÍ, RIO DE MEL conta que Jaci recolheu o mel deixado pelas abelhas, numa ajaka (cesta), as mandiocas de sua roça e ofereceu aos seus vizinhos. Quanto mais oferecia, mais o mel brotava de sua cesta. Todos estranharam o gesto de Jaci, porque esse alimento podia lhe faltar...
EROMA’ENDU’A, GRATIDÃO conta da alegria que surgiu naquele povo e nos povos vizinhos que descobriram que também podiam repartir o fruto do seu trabalho, algo que lhes sobrava do que plantavam ou do que faziam... As aldeias mais distantes passaram também a vir e a repartir o que podiam. A generosidade de Jaci se espalhou entre várias aldeias. Jaci convidou todos a agradecer pelo mel da Eiruba, por tudo que os seres da natureza estavam lhes oferecendo. EROMA’ENDU’A, disseram todos. 
IBARETAMA, O CÉU conta que a visão do povoado se ampliou, trazendo o sol, os enxames de abelha, os animais, a vegetação em abundância e à noite as pessoas voltaram a relembrar a história de seus ancestrais, a contar histórias para os mais jovens.
MIRACEMA, DAR NASCIMENTO conta que os dias foram passando e Jaci percebeu que estava gerando um filho, um memby. Assim como Jaci, muitas outras mulheres da aldeia foram abençoadas e todas as crianças nasceram fortes, para orgulho de todos. As crianças foram batizadas, e os adultos celebraram novamente a vida tocando seus instrumentos e entoando músicas de celebração. Começaram, então, a chamar sua terra de Yvy Porã Porau, terra da boa generosidade.

A história de Yvy Porã Porau e o Rio de Mel vai da tristeza de um povo com dificuldade de sobreviver à gratidão e alegria por voltar a ter alimentos, filhos, animais, flores, o mel. As abelhas representam o trabalho solidário que resulta nas trocas e na cooperação entre as aldeias, que passam a repartir o pouco que têm, voltando à vida e a valorizar sua terra, seus ancestrais, seus costumes. Um conto inspirado na história de luta pela sobrevivência de muitos povos indígenas que povoam o nosso país.
A magia da história de Yvy Porã Porau é a generosidade, a cooperação, o respeito ao outro em busca do bem comum. Quando Jaci recolhe o mel que chega em abundância e o divide com as outras aldeias, essas também começam a compartilhar o que lhes sobra, como parte de suas colheitas e frutos do seu trabalho. Quem lhes ensina essa virtude são as abelhas, que, polinizando flores e fazendo o mel, levam a fertilidade por onde passam, fazendo o sol e a alegria surgirem novamente para todos. O rio de mel representa, então, a fecundidade e a felicidade.
Mesmo sendo uma ficção, o conto trata de temas sociais atuais como a convivência interétnica dos povos, introduzindo o leitor no universo intercultural e linguístico inspirado na cultura dos povos originários, oriunda especialmente da cultura dos povos de origem Tupi-Guarani e Guarani.
O ato de ler esta obra sobre a história de um povo indígena com dificuldades de sobrevivência poderá suscitar a discussão sobre as dificuldades e necessidades dos povos indígenas em nosso país. Não apenas deles, mas dos povos africanos, dos imigrantes de vários países, que passam dificuldade para sobrevivem e que formam esse mosaico brasileiro multicultural, multilinguístico, multirracial, multiétnico, tão grande, tão diverso e tão plural. 
A narrativa lembra a importância de nossas origens, de nossos ancestrais, avós, bisavós, tataravós, cuja experiência é sempre muito respeitada pelos povos indígenas, o que pode levar as crianças a pensar nas suas próprias origens, nos seus “velhos”, independentemente do seu contexto sociocultural. 
A autora mescla o texto, em Língua Portuguesa, com expressões indígenas da Língua Tupi e Tupi-Guarani para tornar a história mais real. Para auxiliar os leitores a compreender o texto, insere um glossário de termos ao final do livro, que intitula “Falando a Língua de Yvy Porã Porau”, o que torna a leitura interessante e um convite a adentrar as línguas desses povos e de muitos outros que acabam por formar a língua brasileira. 

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