Jussara Hoffmann

Contato: jussarahoffmann@editoramediacao.com.br

 

 

ENTREVISTA COM JUSSARA HOFFMANN SOBRE AUTOAVALIAÇÃO

ENTREVISTA COM JUSSARA HOFFMANN SOBRE AUTOAVALIAÇÃO

Entrevista na íntegra com Jussara Hoffmann sobre AUTOAVALIAÇÃO

 

Aprendizado no ESPELHO

Daniela Grinbergas

Revista Educação ANO 19 – nº 217

 

 

 

Jussara Hoffmann é educadora há 45 anos. Atuou vários anos como professora e coordenadora pedagógica em diferentes níveis de ensino, na rede pública e particular de ensino. Com Mestrado em Avaliação Educacional pela UFRJ, ingressou na Faculdade de Educação da UFRGS, onde desenvolveu por muitos anos suas pesquisas e estudos em Avaliação Mediadora e também em Educação Infantil, temas que fazem parte das inúmeras publicações de sua autoria, algumas delas consideradas "best sellers" em educação. Depois de aposentar-se da Universidade, deu continuidade ao seu trabalho de educadora, atuando como Consultora Educacional em escolas e universidades do país e do exterior. Fundadora da Editora Mediação, Jussara Hoffmann é responsável pelo Setor Editorial e pela revisão técnica de todos os livros publicados pela Editora, trabalho esse que reúne sua vasta experiência em formação de professores. Algumas obras da autora: Avaliar: respeitar primeiro, educar depois; O jogo do contrário em avaliação; Avaliar para promover: as setas do caminho; Avaliação e Educação Infantil: um olhar sensível e reflexivo sobre a criança – publicados pela Editora Mediação. Contato: jussarahoffmann@editoramediacao.com.br

 

1.Há algumas escolas que têm usado o método de autoavaliação do aluno – o educando analisa o seu próprio desempenho com frequência. Para tanto, elerecebe um formulário para preencher e, muitas vezes, se dá notas. O que você acha dessa prática?

Muito se fala em autoavaliação nas escolas, mas raramente se efetiva uma autoavaliação que tenha significado para os estudantes. Esse processo deveria ser encaminhado em termos da tomada de consciência de cada aluno, desde as crianças pequenas até os adultos, sobre seu processo de aprendizagem, de se perceber aprendiz, manter-se curioso e ativo em busca de novas aprendizagens. Autoavaliar-se, nesse sentido, é o estudante responsabilizar-se pela própria aprendizagem, refletindo sobre suas conquistas e dificuldades, buscando superar-se a cada dia, construindo novos conhecimentos. Como alcançar isso junto ao aluno? Fazendo-o participar do processo todo o tempo, desde o primeiro dia de aula, a partir do diálogo, de processos interativos, de desafios cognitivos, apontando-lhe os avanços na leitura, na produção dos seus textos, vibrando com ele, escutando as perguntas que faz, tornando-o mais curioso sobre seus avanços. Assim, formulários a preencher sobre atitudes e comportamentos, inclusive com a atribuição de notas, não condizem com essa perspectiva, nem são eficazes em termos de promover a melhoria da aprendizagem dos alunos.

 

2.Acredita que os alunos são capazes de fazer essas análises deles mesmos de forma responsável? Conseguem se isentar, enxergar com clareza as suas deficiências e apontar com certeza seus pontos fortes?

Para responder a essa pergunta, vou exemplificar com uma situação que ocorreu por ocasião de estudos desenvolvidos com alunos que apresentavam sérias dificuldades de aprendizagem. Apresento abaixo o trecho de um relatório da professora que analisou o caso de uma aluna do quinto ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede privada e com um histórico de reprovação na escola:

Os professores de Nara a descrevem como uma menina quieta, tímida, muito meiga, carinhosa, mas perdida, distraída, desintegrada do grupo de colegas. Não questiona e não se expõe em aula se não é convocada. A professora de matemática, disciplina em que apresenta maior dificuldade, relatou que Nara não compreende os conteúdos básicos desenvolvidos nos anos iniciais, como é o caso da divisão, da sequência numérica e da interpretação de histórias matemáticas. A professora de ciências afirmou que Nara tem dificuldade para compreender e interpretar a ordem de exercícios realizando tarefas de forma incorreta. A professora de língua portuguesa disse que Nara ainda tem muita dificuldade para expressar seu pensamento de forma escrita e oral (...). Ao falar com Nara, ela diz gostar da escola, dos professores, dos colegas e não reclama de nada. Por vezes parece que ela não tem consciência das suas dificuldades ou não quer falar dos seus sentimentos. Sempre afirma que está entendendo os conteúdos e que está tudo bem (Relato de uma professora participante de um Programa de Assessoria, 2009)

Entrevistados sobre a aluna, os professores de Nara apontam várias “negativas” sobre ela: o que a aluna não é; o que a aluna não faz...  Nara vinha apresentando problemas desde o primeiro ano na escola e com questões familiares muito sérias para serem resolvidas. No entanto, para seus professores, ela não “era consciente de seus problemas, não dialogava com eles, não perguntava em sala de aula, não participava das atividades e dos trabalhos em grupo”. A pergunta que se faz é sobre o “despertar da consciência” da aluna sobre o seu aprender e sobre sua participação nas atividades escolares que os professores dizem não ocorrer há alguns anos. De quem é essa responsabilidade? E como trabalhar nesse sentido?

Podem-se observar, no exemplo citado, sérias contradições entre o modo como os professores veem a aluna e como ela própria se percebe. Eu responderia à pergunta que me foi feita, a partir de cerca de duzentos casos de acompanhamento a alunos, que absolutamente não, os alunos não são capazes de enxergar com clareza suas deficiências, seus pontos fracos e fortes ou seus avanços no que diz respeito à aprendizagem no sentido pleno, ao seu desenvolvimento intelectual e moral. A pergunta que faço é: “como pode alguém saber que não sabe o que ainda não sabe?” Essa questão é ainda mais relevante no caso das crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

Por outro lado, há, sim, o caráter de responsabilidade dos alunos mais velhos em relação a esses processos. Nas universidades, principalmente nas ciências humanas, ocorre de os alunos se atribuírem conceitos máximos ou responderem positivamente sobre aprendizagens não realizadas, mesmo conscientes de suas dificuldades. Para os professores desavisados ou que não efetivam uma prática avaliativa séria, esses conceitos ou notas passam a “valer”. Ao final, o próprio estudante é penalizado por isso, pois recebe um diploma que não corresponde dignamente ao que será exigido dele em sua profissão.

 

3. De alguma forma, a obrigatoriedade da autoavalição do aluno fere a ética?  Como a sociedade é muito apegada às notas, há escolas que pedem para que os alunos se deem notas nessas autoavaliações. Como enxerga essa medida?

Em consonância à concepção de avaliação contínua, mediadora, autoavaliar-se significa o aluno acompanhar seu próprio processo de aprendizagem, ação que denomino “simplesmente complexa”. Uma ação “simples”, em primeiro lugar, porque não há pessoa alguma que já não faça isso, de alguma maneira.  Na escola ou fora dela, como seres humanos e dotados de sentimento e racionalidade, estamos sempre refletindo e julgando nossos atos e/ou a consequência deles, mudando ou não de rumos em função disso. Trata-se de uma ação “complexa”, contudo, porque nossos próprios juízos de valor são costumeiramente influenciados pelo olhar dos outros sobre nós mesmos, uma vez que somos também seres sociais. Complexa, também, porque a escola pode contribuir positiva ou negativamente sobre os juízos de valor que os alunos fazem sobre si próprios, muitas vezes obstaculizando seriamente a sua continuidade ou êxito nos estudos. O aluno ser levado a julgar, por meio de fichas ou pareceres, suas atitudes e interesses em sala de aula e na escola, por exemplo, pode causar um sério prejuízo em termos de sua autoestima e, portanto, trata-se de uma questão ética. De fato, diria, “burrocratizou-se”, na maioria das escolas, a autoavaliação, tornando-a um instrumento final, de caráter atitudinal, disciplinador, sem representar uma contribuição efetiva no sentido da tomada de consciência do aluno sobre a sua participação na melhoria do processo de aprendizagem.

 

4. A simples conversa frequente entre o educando e o educador não seria suficiente para gerar uma discussão/orientação rica sobre os erros e acertos do estudante? Ou será que há espaço para que a autoavaliação nesses moldes acima como mais uma ferramenta para essa discussão?

Essa “conversa”, conforme meus comentários anteriores, pode não ser simples ou suficiente. Uma orientação rica e emancipadora ao aluno envolve o caráter mediador desse diálogo. Para dar exemplos de processos significativos de autoavaliação, citaria: possibilitar aos alunos fazer muitas e muitas perguntas em sala de aula e fora dela aos professores sobre todos os assuntos; solicitar em salas de aula ou outros espaços que apresentem soluções a problemas ou leiam o que escreveram para o grupo, discutindo com os outros suas ideias; oportunizar a consulta individual dos alunos em laboratórios, com o registro de suas dúvidas e comentários por parte dos professores; abrir muitos espaços individuais e coletivos de discussão sobre os processos educativos vividos e a participação nesses; propiciar a elaboração de “diários de bordo” – a escrita reflexiva dos alunos sobre suas vivências de aprendiz na escola; os professores fazerem comentários descritivos, anotações, perguntas desafiadoras em tarefas escritas devolvidas aos alunos. Tais processos, além disso, não podem nem devem ser desenvolvidos por professores isoladamente. O compromisso de efetivar processos significativos de autoavaliação é de todos os profissionais que atuam nas escolas e universidades, com esclarecimentos em primeiro lugar aos próprios alunos (que precisam sentir que são ações em seu benefício), com ações bem planejadas em termos do que se pretende fazer e por que fazer (mediação).

 

Essa ideia de autoavaliação corresponde à busca pela autonomia ?

Os exemplos citados anteriormente apontam para situações de “autoavaliação” significativas que têm por objetivo, sem dúvida, seres autônomos e participativos na sociedade.  Oportuniza-se, com tais processos, que os próprios alunos tomem a iniciativa de buscar ajuda para melhor progredir em seus estudos, de se desenvolver a ponto de vir a assumir e/ou superar problemas pessoais e profissionais em outras circunstâncias de vida.

Tal “iniciativa”, entretanto, é uma postura do estudante que só ocorre em ambientes generosos para com ele, de atitudes positivas dos professores frente aos seus erros e tentativas. A iniciativa, a responsabilidade, a curiosidade  natural do aluno não sobrevive a processos autoritários e diretivos de ensino e avaliação, mas que desabrocham a partir de práticas avaliativas mediadoras e dialógicas.

Ao longo de sua escolaridade, os estudantes devem mostrar-se mais participativos e autônomos em termos de seus estudos e, portanto, mais capazes de se autovaliar quanto a avanços e dificuldades no processo. Controle em demasia, punições, notas por atitude, fichas de atitudes e comportamento preenchidas pelos estudantes para receber uma nota estão na contramão do desenvolvimento da autonomia moral e intelectual – ensinam aos alunos que só devem aprender o que a escola pede e somente se comportar bem quando e se estiverem sendo vigiados ou em risco de serem punidos, um “berço esplêndido” para uma juventude violenta e não empreendedora! A passividade e o desinteresse dos alunos são alertas de que não estão sendo favorecidos processos sadios de autoavaliação – espaços de confiança, de diálogo e de oportunidade de crianças e jovens se comprometerem com seus próprios rumos, definirem projetos de estudo, etapas de trabalho, individuais e em grupo.

 

5. Qual a sua opinião, concluindo, sobre a autoavaliação?

Para concluir essa conversa, diria que a autoavaliação verdadeira se dá sem os procedimentos formais e burocráticos que a “institucionalizaram” deturpando o verdadeiro sentido educativo do termo. Os alunos sabem, desde bem pequenos, que são observados, acompanhados, que suas tarefas são corrigidas, que ganham ou perdem pontos por determinadas atitudes, que lhe atribuem notas e conceitos ou que alguns professores são mais ou menos severos. O controle e o autoritarismo fazem parte da nossa vida, seja na família, seja na escola ou na sociedade, mas é possível “virar o jogo”, fazer o contrário e intencionalmente acompanhar os alunos em benefício deles próprios, com afeto, com atenção, a serviço de suas aprendizagens, tornando-os participativos no seu processo educativo para que se tornem capazes de tomar decisões corretas em suas vidas.

 

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