Jussara Hoffmann

Jussara Hoffmann

JUSSARA HOFFMANN estará realizando uma palestra em Ampére, Paraná, no dia 12 de maio de 2015. A Faculdade de Ampére – FAMPER,estará realizando a Semana Acadêmica dos Cursos de Licenciatura em Pedagogia, Matemática, Letras, Artes, de 11 a 15 de maio de 2015.

Jussara Hoffmann é educadora há 45 anos. Atuou vários anos como professora e coordenadora pedagógica em diferentes níveis de ensino, na rede pública e particular de ensino. Com Mestrado em Avaliação Educacional pela UFRJ, ingressou na Faculdade de Educação da UFRGS, onde desenvolveu por muitos anos suas pesquisas e estudos em Avaliação Mediadora e também em Educação Infantil, temas que fazem parte das inúmeras publicações de sua autoria, algumas delas consideradas "best sellers" em educação. Depois de aposentar-se da Universidade, deu continuidade ao seu trabalho de educadora, atuando como Consultora Educacional em escolas e Universidades do país e do exterior. Fundadora e sócia-proprietária da Editora Mediação, Jussara Hoffmann é responsável pelo Setor Editorial e pela revisão técnica de todos os livros publicados pela Editora, trabalho esse que reúne sua vasta experiência em formação de professores. Contato: jussarahoffmann@editoramediacao.com.br

 

Brasil, um país de leitores?

Brasil, um país de leitores?

Aproveitando a Festa da Leitura em Porto Alegre, retomo aqui um texto que está inserido no livro "Avaliar: respeitar primeiro, educar depois.

"Em 2007 fiz uma longa viagem para o exterior. Algumas cenas ao longo dela me sugeriram o tema deste capítulo. A primeira foi a de uma família de estrangeiros, um casal de idade média e seu filho adolescente, que na sala de espera do aeroporto permaneceram todo o tempo lendo, cada qual o seu livro. Permaneciam tranquilos, sempre fixados nas leituras enquanto outros passageiros reclamavam da espera, caminhavam, faziam lanches, conversavam. Por coincidência, sentaram próximos ao meu assento no avião. Eles continuaram a ler após a decolagem, após a refeição e quando acordaram pela manhã. O rapaz que devia ter 13 ou 14 anos só parou de ler quando terminou o livro que não era pequeno. Já em outro país (segunda cena), vi um cartaz em frente a uma livraria de uma pequena cidade litorânea. Apresentava um surfista sorrindo e equilibrando-se na prancha com um livro na mão – divulgando a importância da leitura para os que apreciam o esporte. A terceira cena passou-se em um pequeno vilarejo nas montanhas. Na avenida central da vila, havia o que se denominaria no Brasil de um “sebo”, em geral escuro e precariamente organizado. Nesse lugar, ao contrário, encontra-se uma acolhedora e organizada livraria cujo nome é “Pre-loved” (pré-amados, ou seja, livros que foram “amados” por um primeiro leitor).Uma última cena, dentre muitas como essas, chamou-me também atenção: no retorno para Porto Alegre, entre aeroportos e voos, havia duas meninas estrangeiras de seis e oito anos que leram, durante todo tempo, romances de mais de 300 páginas cada uma, com letras miúdas e folhas amarelecidas, cujos títulos não pude ver porque elas permaneceram a maioria do tempo com eles abertos no colo já que eram pesados para que os bracinhos miúdos das duas pudessem segurá-los. A pergunta que me fiz na ocasião, ao observar cenas como essas, é por que elas são tão raras no Brasil. Costumam-se ver em viagens, parques e outros locais, jovens e adultos ocupando o seu tempo de lazer com brinquedos, com equipamentos de som, com videogames e computadores, com jornais e revistas. Poucos brasileiros (quase só adultos) leem livros para se distrair ou pelo prazer de ler. O que precisaremos fazer, como pais e educadores, para formar “leitores para sempre” (Demo, 2009) considerando que a leitura é essencial à cultura de um povo? Nas cenas que vivi, os adultos liam ao lado dos filhos. Bibliotecas e livrarias ocupam lugares privilegiados em shoppings e ruas centrais, mesmo das pequenas cidades, e procuram ser convidativas. O prazer de ler, tal como o mencionado cartaz do surfista sugere, equivale ao prazer de surfar, de viajar, de descansar. Não se pode esperar que crianças se tornem leitoras se pais e educadores não forem leitores, se a sociedade não lhes oportunizar o prazer da leitura. Os adultos têm o compromisso de orientá-las sobre diferentes possibilidades, auxiliando-as na escolha de livros adequados e prazerosos, conversando sobre o que estão lendo, acompanhando as crianças em suas próprias escolhas. Uma leitura mecânica ou obrigatória em nada contribui para despertar o encantamento. Livros são caros, dizem muitas pessoas, e por isso não os compram. Mas celulares são caros, brinquedos mais ainda, revistas são caras e superficiais (além de questionáveis em seus conteúdos), TVs, DVDs, iPads, equipamentos de som são caros. E as famílias brasileiras “de todas as camadas sociais” disponibilizam aos filhos tais objetos. Só não disponibilizam livros. Nas escolas se aprende que é “preciso ler” para adquirir maior cultura, para falar e escrever melhor, para ascender social e profissionalmente! Mas o que “é preciso”, o que se “tem de fazer” nem sempre é convidativo, agradável. É urgente “ensinar a gostar de ler”. Ler para brincar com as palavras, ler para imaginar e imaginar-se, ler para sonhar, ler por gostar de ler. Adultos que são apaixonados por livros contagiam as crianças com a mesma paixão (Elias José, 2009). Uma grande amiga e educadora conta que despertou em seus filhos o gostar de ler deixando livros espalhados pela casa desde que eram bem pequenos: no banheiro, na mesinha da sala, na cozinha, no seu quarto. Deixava-os à toa pela casa como um objeto à procura de algum dono. De vez em quando, percebia que eles mudavam de lugar ou, então, ouvia comentários dos filhos sobre alguma passagem dos textos. Assim ela sabia que os livros haviam encontrado um dono. Com isso, formou filhos leitores, de conto em conto, de livro em livro. Confesso, em relação a meus filhos, que não tive o mesmo sucesso. Gostaria que lessem mais. E fomos sempre ávidos leitores, meu marido e eu. Mas hoje volto à luta e faço minha campanha de avó. Compro e leio livros para minhas netas desde bebês. No início os filhos até riram de minha empreitada. Mas foram as netas que venceram seu ceticismo. Os livros ganharam mais e mais espaço no lugar dos brinquedos a ponto de elas até os trocarem por algum livro novo. Preciso dizer que por vezes eu me surpreendo com o que vi e vejo acontecer. Com nove meses, elas já escutavam as histórias no colo, atentas e por longo tempo com o dedinho apontado para as ilustrações preferidas. Aos dez meses, já folheavam as páginas, olhavam os livros sozinhas do começo ao fim, do fim ao começo, antes mesmo de engatinhar, de caminhar. Seus livros de história foram se misturar aos dos adultos na sala, “para que elas não mexessem mais nos da mamãe e do papai”. Com um ano e meio, elas não os rasgavam e os carregavam com as duas mãos como se fossem tesouros pedindo para se ler “de novo” muitas e muitas vezes. As minhas netas são boas leitoras. Escolhem os livros para se ler e começam a contar as histórias iniciando por era uma vez... e perguntando a cada página: “O que será que aconteceu?” O curioso é que elas tornaram seus pais leitores, pois não dormem sem que lhes contem uma história.Minhas netas serão leitoras para sempre? Até essa idade, livros de todos os tamanhos e formas são alguns dos seus “brinquedos” preferidos. Se não “forem para sempre”, a magia de hoje com certeza terá muita força amanhã. A paixão pelos livros dos avós, dos pais e educadores é essencial. É preciso nascer e crescer entre livros e leitores para se gostar de ler.

Jussara Hoffmann
Porto Alegre, abril de 2015
www.jussarahoffmann@editoramediacao.com.br

 

 

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