Literatura Infantojuvenil

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Uma travessia perigosa

Jane Mitchel

Tradução José Geraldo Couto
ISBN: 978-85-7706-117-4
1 ed. 2018 p.
Categoria: 6 - 1º ao 3º ano – Ensino Médio
Temas: 
A vulnerabilidade dos jovens 
Protagonismo juvenil 
Diálogos com a sociologia e a antropologia
Gênero: Romance

Inspirado em fatos reais, este romance juvenil é narrado por Ghalib Shenu, um menino curdo sírio de 13 anos que vive com a sua família na cidade de Kobani, no norte da Síria. Ele e seu primo Hamza Al-Khateeb costumam apanhar objetos como sapatos nos escombros de prédios bombardeados pelo Estado Islâmico. Durante um desses episódios, eles são atingidos pelas bombas. Hamza é quem se machuca com mais gravidade. Após o incidente, a família de Ghalib decide sair da Síria e ir para a Europa. A travessia de mais de 2 mil quilômetros se inicia, passando por fronteiras cheias de policiais truculentos, campos de refugiados, um mar repleto de perigos, dentre outros obstáculos físicos e emocionais. Como refugiados, eles se tornam reféns da fome, violência, falta de assistência médica, além da constante tensão e ausência de perspectiva. O nome de cada criança desta história é o nome de uma criança síria real que morreu vítima da guerra em seu país.
  • Sumário
    Convite à leitura
    Patrícia Campos Mello
    Repórter especial da Folha de S.Paulo e já esteve três vezes na Síria durante os conflitos. 

    Ghalib Shenu podia ser apenas mais um entre os milhões de meninos de 13 anos espalhados pelo planeta. Ele gosta de games, de futebol e de livros sobre sobrevivência na selva. Detesta quando sua irmã mais velha revira os olhos e implica com ele. Mas Ghalib nasceu na Síria.  A guerra síria, que começou em 2011 e já matou mais de 400 mil pessoas, virou a vida de Ghalib e sua família de cabeça para baixo. Sua cidade, Kobani, ficou destruída. Ninguém ia para a escola havia meses, o centro da cidade tinha virado um amontoado de escombros e a diversão das crianças era fazer incursões ao mercado abandonado e achar coisas para vender. Depois de Ghalib ser atingido por um bombardeio e escapar por pouco da morte, seu pai chegou à conclusão de que não dava mais para ficar em Kobani. De um lado, ataques aéreos e os fanáticos do Estado Islâmico, que deixavam um rastro de atrocidades por onde passavam. De outro, o perigo de Ghalib ser obrigado a se alistar no Exército e lutar nessa guerra sangrenta. Sem saída, Ghalib e sua família lançam-se em uma travessia perigosa, cruzando fronteiras fechadas para os milhares de sírios em fuga, enfrentando traficantes de pessoas inescrupulosos, policiais hostis, países e línguas novas. É longa e difícil a caminhada até o sonho europeu e uma vida segura.
    A autora, Jane Mitchell, faz o leitor mergulhar na saga de Ghalib e sua família, com riqueza de detalhes impressionante, resultado de inúmeras entrevistas com crianças e jovens sírios cujas histórias inspiraram esta obra. É um livro difícil de largar – ao longo das páginas, sentimos que Ghalib poderia ser nosso vizinho, amigo, filho ou primo, e torcemos por ele e por sua família. A proeza de Mitchell é despertar empatia, esse item tão em falta nos dias de hoje. O leitor consegue se colocar no lugar de Ghalib e entender, ao menos em parte, o que leva esses milhares de famílias a fugirem e encararem os perigos de uma jornada que, muitas vezes, tem um fim trágico. Mitchell dedica seu livro a todas as crianças sírias que tiveram a vida lesada, alterada ou arruinada pela guerra civil em seu país. Porque, como diz Ghalib, tudo que elas querem é voltar ao tempo anterior à guerra. “Quero ir para casa.” * É repórter especial da Folha de S.Paulo e já esteve três vezes na Síria durante os conflitos. 
  • Trecho
    Capítulo 1 (p.10-12)

    Contorno correndo a Praça da Liberdade, no centro de Kobani. Mal reconheço este lugar, tamanha a ruína em que se encontra. Aperto meu fardo contra o peito: sapatos de mulher e camisas de homem, telefones celulares dentro de caixas, livros de colorir só um pouco chamuscados. Até mesmo peças de bicicleta — tudo deixado nas lojas explodidas e tendas bombardeadas do velho souq. Olho por cima do ombro para ver se nenhum lojista está me perseguindo. Você não imagina a rapidez com que eles se movem, levando em conta seu tamanho, mas o fato é que nunca conseguiram nos pegar. Somos rápidos demais para eles. Eu me esgueiro em meio às sombras dos montes de entulho e dos prédios em escombros. Salto por cima de crateras de bomba e emaranhados de aço enferrujado, por cima de balas e cartuchos detonados. Sou Ghalib Shenu. Sou invencível. Meu primo Hamza Al-Khateeb corre à minha frente. Ele se afasta da praça e entra nas ruazinhas estreitas. Antes de segui-lo, paro sob a marquise de um prédio bombardeado para esperar meu irmão menor.
    — Vamos logo, Aylan — digo.
    Ele para de correr ao me ver esperando, com seu suéter vermelho em contraste vívido com as ruas poeirentas. Esfrega o nariz na manga.
    — Estou cansado, Ghalib — diz.
    Sua perna esquerda levanta uma golfada de poeira a cada passo: seu andar manco piora quando ele está cansado. Sua mão defeituosa se retorce, formando um pequeno gancho.
    — Endireita essa mão — eu digo. Hamza retorna até onde estou esperando. Meus músculos se retesam. Eu preferia que ele seguisse em frente. Hamza olha para Aylan.  
    — Você não devia ter trazido ele — diz.
    — Cala a boca, Hamza.
    — Vão pegar a gente por causa dele.
    — Ele está indo bem.
    — Ele é lento demais.
    — Você não precisa esperar por nós.
    Mas Hamza espera. Protege os olhos do sol com a mão. Esquadrinha as ruas vazias, o céu vazio. Faz isso para tentar me pressionar. Os lojistas chegam rapidinho se nos veem roubando mercadoria avariada, mas ataques aéreos são ainda mais rápidos, rugindo dos céus para pulverizar tudo em volta. Quando Aylan nos alcança, tiro dele uma caixa de sapatos e duas caixas de celulares e coloco em cima das minhas coisas. Ficam com ele só um saco plástico com campainhas de bicicleta e algumas roupas leves.
    — Você leva isso — digo.
    Andamos devagar agora, com as sandálias rangendo sobre pedras irregulares e entulhos. Abrimos nosso caminho entre carros deformados e estilhaços de vidro. Quando a rua está bloqueada por escombros de um prédio bombardeado, Hamza escala os montes de tijolos chamuscados. Estendo a ele nossas mercadorias e em seguida puxo Aylan por cima de buracos e calombos de concreto.
    — Fique longe dos fios expostos — digo.
    Gordas moscas-varejeiras azuis voejam sobre buracos fétidos onde cadáveres apodrecem embaixo de ruínas fumegantes. Enquanto ergo Aylan por sobre os obstáculos, uma leve vibração faz estremecer os fios de aço enferrujados que afloram das lajes compactas. O metal canta e geme como mulheres lamuriantes. Meu coração bate mais forte. Agarro a mão de Aylan. Nós três nos detemos. Esperamos. Ficamos à escuta. Talvez não seja nada.
    Prendemos a respiração, em silêncio. Cacos de vidro presos ao caixilho de uma janela despedaçada retinem, vibrando como sinos distantes. Isso não é bom. A escuridão que me invade infiltra-se no meu sangue. Abraçamos com mais força nossos sacos de mercadorias. Ergo os olhos para o céu vazio. Aylan me encara, de olhos bem abertos.
    — Quero a Umi — ele sempre chama por nossa mãe quando está apavorado.
    — Eu quero é um abrigo! — diz Hamza.
    Puxo Aylan pela mão.
    — Vem comigo.
    O leve tremor já foi abafado pelo zumbido distante. Este se eleva. Meu peito se contrai. Agora saímos correndo, em busca de abrigo, e o pânico faz Aylan acelerar seu passo torto. As batidas de nossos pés no chão são o único som além do rugido crescente do ataque aéreo que se aproxima. Ele estilhaça o ar parado. Rasga a quietude das ruas vazias. Lanço-me através de uma fresta aberta no muro do que costumava ser a biblioteca central. Hamza e Aylan me seguem. Empurro Aylan contra a parede chamuscada embaixo de uma marquise de tijolos e argamassa caindo aos pedaços. Hamza rasteja até nós. Agachamos bem encolhidos num canto, com a respiração ofegante, o coração disparado. Aylan treme sob os meus braços. Talvez Hamza tenha razão. Talvez devêssemos ter deixado Aylan em casa, especialmente com um ataque aéreo iminente. A Umi vai me matar se ele for explodido. O ar se avoluma e estremece.  Um flash de escuridão pisca diante do sol quando o projétil passa zunindo sobre nossas cabeças para estourar num terreno distante de onde estamos encolhidos. Um estrondo vibrátil passa por baixo, ou através, de nós. A própria terra parece sofrer uma convulsão...
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