Fundamentos Pedagógicos

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Saúde, sexualidade e gênero

na educação de jovens

Dagmar E. Meyer e Rosângela Soares et al. (Orgs.)
ISBN: 978-85-7706-082-5
ed. 192 p.
Esta publicação trata com seriedade e profundidade essas questões, articulando considerações teóricas a dados de pesquisa, entrevistas, cenas de sala de aula e outras situações. No decorrer da leitura, percebe-se que não há como pensar em educar os jovens sem refletir sobre seus corpos presentes nas salas de aula, sem refletir nas marcas neles impressas pelo contexto sociocultural e sem incluir no currículo escolar a temática aqui abordada em toda a sua complexidade. Pretende-se, com esta significativa seleção de textos, desafiar os educadores a incorporar, em seus programas e projetos pedagógicos, tais estudos que representam desafios contemporâneos em educação.
  • Sumário
    Introdução
    Saúde, sexualidade e gênero na educação de jovens, por quê?
    Dagmar Elisabeth Estermann Meyer


    Currículo escolar e educação da saúde: revisitando a história
    Maria Stephanou

    Infância: idade de ouro da educação da saúde
    Escola: locus privilegiado da educação da saúde
    O que se oferecia aos escolares: formas e conteúdos

    O que é saúde? O que é doença?
    Ricardo Burg Ceccim

    A medicalização
    A Atenção Primária de Saúde
    A defesa da vida
    Defesa da vida no espaço escolar

    Corpo, gênero e sexualidade: desafios para a educação escolar
    Dagmar Elisabeth Estermann Meyer e Rosângela de Fátima Rodrigues Soares

    Lugares, olhares e significados ou… um campo conceitual e político

    Corpo e sexualidade na escola: as possibilidades estão esgotadas?
    Luiz Fernando Calage Alvarenga e Maria Cláudia Dal’Igna

    Corpo: um lugar de possibilidades inesgotáveis…
    Identidades sexuais na escola: ainda há muito que falar…
    As possibilidades estão esgotadas? Para iniciar uma conversa…

    O corpo feito cenário
    Graciema de Fátima da Rosa

    Cena 1: Que tal uma revoada de meninas?
    Cena 2: Corpo-coleção: de brincos, agendas e moletons witch
    Cena 3: Num corpo all star
    Um breve exercício de análise

    Mídia, corpo e educação: a ditadura do corpo perfeito
    Sandra dos Santos Andrade

    A produção dos corpos femininos nas revistas
    Algumas reflexões…

    Professora, cadê seu corpo?
    Maria Simone Vione Schwengber

    Os corpos "“dentro do lugar"” que a escola inventou
    Os corpos das alunas estão “"fora do lugar”"

    Sexualidade: lições da escola
    Guacira Lopes Louro

    Escola e sexualidade
    Identidades de gênero e identidades sexuais
    O que a escola afirma e o que ela silencia

    Sexo e saúde na escola: isso não é coisa de médico?
    Dora Lúcia de Oliveira

    Sexo, saúde e educação: como tem se dado essa aproximação?
    Afinal o que é educação sexual? A quem compete?

    Sexualidade nos livros infanto-juvenis
    Jane Felipe de Souza

    (In)visibilidades nas relações de gênero
    Mulheres românticas e maternas
    Idealizando um modelo familiar
    (In)visibilidades de classe social
    Heterossexualidade como norma, homossexualidade como desvio
    Considerações finais

    O ponto fora da curva
    Rosimeri Aquino da Silva


    "“Só as quietinhas vão casar"”
    Ruth Francini Ramos Sabat

    Caminhos para pensar gênero e sexualidade
    Filmes ensinando a ser menino e menina

    Subsídios à educação sexual a partir de estudo na internet
    Jimena Furlani e Thais Maes Lisboa


    Aids & escola
    Fernando Seffner

    A pesquisa
    Aids, adolescência e vulnerabilidade
    Os adolescentes e a Aids
    Considerações finais

    A função educativa na prevenção do consumo abusivo de drogas
    Maria Tamara Porto de Ávila

    Quando a informação acrescenta à formação
    Preparar-se para a tarefa
    Prevenção primordial
    Prevenção primária
    Prevenção secundária
    Prevenção terciária
    Qual a percepção que temos dos nossos alunos
  • Trecho
    Introdução
    Saúde, sexualidade e gênero na educação de jovens, por quê?

    Dagmar Elisabeth Estermann Meyer
     
    (...) A saúde "entra" na escola brasileira, como parte de suas preocupações e atribuições, no final do século XIX, considerando-se aí tanto a dimensão assistencial quanto o desenvolvimento de hábitos, atitudes e valores compatíveis com uma determinada concepção de "indivíduo saudável". De lá para cá têm sido registradas muitas leis, decretos e discussões de cunho acadêmico e político em torno dessa área que se consolidará como saúde escolar, mas o seu "lugar", no currículo e na vida escolar, tem sido, quase sempre, um lugar de disciplinamento, controle, conflitos e ambiguidades amplamente silenciadas nas grandes discussões que cercam, no contexto reformista atual, tanto a formação de professores quanto o currículo da escola básica.
    Em sua concepção usual, a saúde escolar engloba, ao mesmo tempo, o atendimento à saúde da criança em idade escolar (como prática assistencial) e o ensino de normas, valores e hábitos relativos à aquisição, conservação e recuperação da saúde (programas de saúde, educação para a saúde e, atualmente, educação em saúde). Se prestarmos atenção ao parênteses que abri depois de referir-me ao que tem sido apresentado como sendo a dimensão educativa da saúde escolar, poder-se-ia começar por mergulhar de cabeça numa das importantes discussões conceituais que atravessam esse campo. Essa discussão, que envolve o significado e os desdobramentos do uso de conceitos como saúde escolar, educação para a saúde, educação popular e saúde ou educação em saúde, por exemplo, é bastante bem desenvolvida por Jaqueline Silva (1994) e Marina Valadão (2004) e está longe de ser irrelevante, especialmente se concordarmos com a ideia – hoje bastante incorporada nas discussões teóricas e políticas no campo da educação – de que a linguagem é uma instância muito importante de construção de sentidos, verdades e subjetividades nas sociedades. Concordar com essa ideia implica entender que a linguagem é, do ponto de vista político, um "lugar" de delimitação de espaços, de produção, legitimação e hierarquização de práticas e saberes, um "lugar" de exercício de poder que precisa ser ocupado e problematizado.
    Sem entrar nos detalhes dessa discussão conceitual, torna-se necessário então enfatizar que os textos reunidos nesta publicação, embora fundamentados em diferentes abordagens teóricas, partem de alguns pressupostos básicos comuns, importantes de serem explicitados.
    Boa parte desses pressupostos está implicada com a discussão que envolve a complexidade da concepção de saúde, a sua inserção no currículo e no cotidiano escolares e sua articulação com temas como sexualidade, gênero e uso de drogas quando se trata da educação de jovens.
     De uma vertente supostamente superada, que apresentava a saúde como sendo a ausência de doenças, vamos deparar-nos, na segunda metade do século XX, com um acirrado debate político que entende a saúde numa concepção mais ampla e como um direito inerente ao exercício da cidadania, acompanhado de um debate teórico-científico que vai gradativamente ampliando, diversificando e complexificando a concepção de saúde em si mesma. Podemos apontar para a mesma multiplicidade de sentidos, no que se refere ao conceito de cidadania.
    Se retomarmos o conceito de cidadania nas sociedades ocidentais, veremos que ele, usualmente, remete a uma dupla matriz histórica: a de uma prática política cujo referencial antigo é a pólis grega e a de um ato político de declaração de direitos, cujo referencial moderno é a Revolução Francesa. Cidadania está relacionada, então, ao mesmo tempo, à existência de um conjunto de direitos e ao exercício desses direitos. 
    Considerando-se a cidadania na perspectiva do liberalismo que se instala com a Revolução Francesa, de forma gradativa, tanto na Europa quanto na América do Norte, calcado nos princípios da liberdade, igualdade, fraternidade e propriedade, veremos que, nas sociedades liberais, o cidadão se legitimou, em grande medida, pelo seu poder de posse. Dessa forma, o liberalismo não somente não suprimiu as desigualdades sociais e políticas, como as reforçou ao mascará-las sob os princípios da liberdade e da igualdade de direitos, o que podemos reconhecer facilmente, hoje, quando confrontados com o fato de que mulheres, não brancos, pobres, analfabetos, etc..., não eram, nessas sociedades, tratados nem como livres, nem como iguais. A conquista dessa condição de cidadania tornou-se, pois, desde o século XVIII, o objeto de luta de múltiplos segmentos e grupos sociais que dela estavam excluídos. 
    Começa a ficar evidente, aqui, que a elaboração e a legitimação de direitos constituem uma dimensão importante, mas não basta para transformar o ser humano em cidadão. Se bastasse, não estaríamos, ainda hoje, em nossas escolas e em grande parte dos movimentos sociais, no Brasil, nos debatendo com a dificuldade (geralmente discutida de forma muito ambígua e genérica) que diz respeito à formação de cidadãos.
    Essa dimensão dos direitos é bastante bem discutida em um livro de Demócrito de Moura, intitulado "Saúde não se dá: conquista-se" (1989). Na análise histórica que faz, o autor começa por enfatizar que direitos, quaisquer que sejam eles, não estão definidos a priori, não são presentes de Deus, da natureza, de determinadas sociedades e muito menos de seus governantes, mas são fruto das lutas daqueles que estão, por muitos e variados motivos, excluídos. Isso confere ao direito um caráter dinâmico, de construção histórica e social, na medida em que incorpora e consolida, por vezes de forma conflituosa e divergente, conquistas de diferentes grupos sociais ao longo do tempo. Por isso, mesmo que falemos em um conjunto de direitos universais do homem, acabamos por deparar-nos com uma enorme diversidade de entendimento, implementação e nível de acesso a esses direitos, nas diferentes sociedades e, dentro da mesma sociedade, entre os diferentes grupos sociais. 
    Essa disparidade, que se traduz em condições desiguais de acesso e permanência aos bens e serviços públicos e aprofunda a injustiça social, tem relação, entre outras coisas, com algumas questões importantes que precisam estar incorporadas nos processos educativos, tais como o nível de compreensão que os indivíduos/grupos adquirem do que lhes é devido; o poder político que conseguem exercer e que os capacita a serem respeitados e atendidos em suas necessidades; os mecanismos e estratégias de vigilância que conseguem implementar de forma que possam fazer frente às tentativas de supressão ou negação de direitos já instituídos e legitimados.
    Nessa concepção, é que podemos reconhecer a atualidade e a pertinência de continuar discutindo a vinculação entre educação, saúde e cidadania, não só no sentido de reafirmá-la como um princípio genérico, mas no sentido de problematizar os diferentes significados que são construídos para cada termo dessa relação e para os efeitos gerados por sua conexão, no contexto político brasileiro. Cabe, sobretudo, frisar que o direito à saúde (por mais reduzido que seja o entendimento atribuído a esse conceito), que foi reafirmado como um dos direitos fundamentais conferidos ao cidadão brasileiro na Constituição de 1988, continua sendo, ainda hoje, um direito a ser reafirmado politicamente – basta prestarmos atenção ao noticiário diário de jornais, rádio e TV, no que se refere à discussão do Sistema Único de Saúde e da regulamentação dos planos privados de saúde, por exemplo, para dar-se conta da atualidade dessa afirmação. A construção da definição, conquista e efetivação desse direito continua passando também pela escola e pela sala de aula e se configura como uma das dimensões do exercício da docência.(...)

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