Inclusão e Educação Especial

Inclusão e Educação Especial
Alta resolução +
De R$ 52,00 por R$ 41,60

Ouvindo o silêncio

surdez, linguagem e educação

Angela Carrancho da Silva e Armando Guimarães Nembri
ISBN: 978-85-7706-027-6
ed. 128 p.
Armando Nembri nasceu surdo, enfrentou a exclusão em escolas públicas e vários outros desafios. Com apoio de sua família e por sua persistência, alcançou a formação universitária, passou em concursos profissionais e hoje é Mestre, Doutor em Educação e professor universitário. Seu emocionante relato de vida, somado à sua trajetória de escolarização em escolas, torna esta leitura indispensável a surdos e ouvintes uma vez que alerta sobre a necessidade premente de se reorganizar o trabalho pedagógico nas escolas para garantir aos surdos o direito a condições dignas de aprendizagem.
  • Sumário
    Prefácio
    Pedra poema de cor e sentido
    Ricardo Kubrusly


    Ser surdo no mundo ouvinte
    Armando Guimarães Nembri


    Armando: relato de uma experiência
    O nascimento
    “"A senhora sabe que o seu filho não é normal!”"
    A primeira infância: a família
    A escolarização no INES
    Os primeiros amigos ao final da primeira infância
    Da infância à pré-adolescência
    A mobilização da família para me ver
    caminhando com os próprios pés
    A Escola Penedo e a língua portuguesa
    A primeira decisão
    A segunda decisão
    Mais do que nunca, eu precisava muito dos amigos
    As sensações: difícil sorrir
    A adolescência com um colorido especial
    Meus amigos-familiares ou meus familiares-amigos
    A cabeleira democrática
    A diferença a meu favor
    O indivíduo surdo e o ouvinte que começam a coexistir
    A consagração do ouvinte:
    "“Meu neto vai carregar a Bandeira Nacional!”"
    "“Marquem o camisa dez!"”
    As sensações: eu ouvia em preto e branco
    O inglês como terceira língua
    O aprimoramento bilíngue e a questão da dominância
    Vivenciando a parábola do filho pródigo e o primeiro emprego
    De digitador a gerente:
    emoções, aprendizado e quebras de paradigma
    As pós-graduações ao longo do percurso
    A impossibilidade das práticas bimodais
    "“Você é suficientemente maluco para fazer essa prova!”"
    A faculdade: a entrada no mundo que nem sempre ouve
    Os tempos eram outros
    Ser um indivíduo surdo ou um indivíduo ouvinte
    A primeira surpresa
    A segunda surpresa
    A glória e a vitória em minha vida
    O casamento
    Pai surdo e filha ouvinte: o desafio
    Compreendendo o recado da vida
    A experiência acumulada com a surdez
    Uma observação
    Caminhando por este “mundão” afora
    A realização do maior sonho acadêmico
    Uma mensagem
    Ser surdo num mundo ouvinte

    Aprendendo a ouvir o silêncio
    Angela Carrancho da Silva


    Uma estrada de mão dupla
    Enquanto esta escola não chega lá

     
  • Trecho
    A escolarização no Ines
    Trecho retirado do Cap. 1, págs. 18-22
     
    Nenhum dos familiares e amigos, de ambas as famílias, Guimarães e Nembri, tinha experiência com a surdez. Tiveram, de fato, muita paciência, pois não é fácil lidar com a diferença. Sei que não é fácil. Eu a vejo em todas as oportunidades que tenho para visitar o INES (por ocasião da elaboração deste trabalho, visitei a instituição um sem-número de vezes). Visitei todas as faixas etárias e de ensino até as turmas do ensino médio. As crianças surdas, agregadas precocemente para a vida escolar, no INES, ainda na primeira infância, têm um jeito todo especial de compreender o mundo, ou seja, o mundo, em síntese, é o que elas vêem e o que elas conseguem sentir. Minha opinião está balizada por uma observação pessoal (gosto de observar o comportamento dessas crianças; toda vez que vou ao INES, eu reservo um tempo, até precioso, para esta atividade de observação... e sem nenhum interesse maior, por enquanto). Tento rever-me olhando para elas –– hoje, sei que um pedacinho de cada uma delas está em mim –– mas não tenho uma clara idéia do que vivenciei. O relato de minha mãe é o que move a cena de minha primeira infância.
    A educação, a parte técnica propriamente dita, baseava-se, e muito, na utilização do lúdico como forma de desenvolver o cognitivo, as habilidades e a coordenação. Como foi dito por minha mãe, neste tempo eu só brincava, pois, de alguma forma, brincando, comunicava-me com todos ao meu redor. Aprendia que o olho falava, que a face falava, que o corpo falava e, assim, interagia com todos os que me rodeavam. As brincadeiras que admitiam várias performances, interpretações e situações eram as mais utilizadas (balançar o corpo como se fosse dança, caixinhas coloridas para empilhar, livros coloridos com flores, animais e bosques –– também para colorir, chutar uma bola, pelúcias de cores diversas, etc). Segundo a professora Adyr Thereza, eram as brincadeiras que trariam a noção da realidade que eu vivia; eram as brincadeiras que trariam os significados do mundo em que eu vivia.
    Minha casa estava sempre cheia. Sempre havia gente para ficar e brincar comigo. A grande sacada de minha educação, nesta época, além do conhecimento (minha mãe afirma que tudo foi uma questão de bom senso; para mim houve muito mais do que isso), foi a utilização do amor e da paciência inesgotáveis, além do interesse pelo meu desenvolvimento. Particularmente, tenho a convicção de que nenhuma abordagem educacional dará certo se, nela, não estiverem embutidas, além do conhecimento, doses extras de amor e de paciência.
    Nesta primeira fase da vida, ligada à primeira infância, não tive acesso à escola, no sentido de sair de casa para ir até uma instituição de ensino (minha mãe não sabia, ainda, o que fazer; não sabia se colocava-me numa escola de ouvintes ou se colocava-me no INES, onde trabalhava). Nesta época, a escola estava em casa; o aparato educacional era extremamente forte, primordialmente nas pessoas de minha tia, irmã de meu pai, de uma prima de minha mãe – ambas professoras ligadas à educação infantil para crianças ouvintes –– e, especialmente, de minha mãe, que trabalhava no INES como professora –– Técnica em Assuntos Educacionais –– e trazia essa instituição-referência na educação de surdos para dentro de casa.
    Os primeiros anos, como a professora Adyr Thereza lembrou em sua retrospectiva, foram praticamente iguais aos de uma criança com audição normal, com muitas brincadeiras, já citadas, com a exceção da minha habitual indiferença com relação aos estímulos sonoros que, invariavelmente, eram oferecidos.
    A partir da necessidade de um meio mais adequado de comunicação, em função da observância de que minha livre expressão ganhava contornos rudimentares, com gestuais sem sentido e entremeados de sons guturais (a falta de controle na altura do som que sai da boca é, muitas vezes, constrangedora; senti na pele; até hoje, em muitas ocasiões em que estou excitado ou empolgado para repassar alguma coisa, passo pelo problema), a questão de minha educação começou a tornar-se complexa. Minha mãe estava em um impasse, quase que em um dilema, pois julgava importantes tanto as pinceladas oralistas de minha tia e de sua prima, vez que permitiriam o entendimento, mínimo que fosse, da língua portuguesa, como as pinceladas da língua de sinais, pois a via em ação por meio dos alunos do INES. Achava importante o aprendizado da língua de sinais para que eu pudesse me comunicar da mesma forma que os seus alunos; os achava expansivos e soltos, apesar dos tempos ainda oralistas em que vivíamos. Daí, comecei a conhecer, por meio de suas visitas lá em casa (com a autorização de seus pais) e de minhas constantes idas ao trabalho de minha mãe, alguns dos meus primeiros e melhores amigos naquela época. Assim, desta forma, com o ensino simultâneo das línguas portuguesa e de sinais, que no início causou uma grande confusão em minha mente, uma vez que os códigos lingüísticos próprios de cada língua –– símbolos, estrutura e gramática –– ao invés de serem aprendidos de modo dissociado, na maioria das vezes, eram aprendidos de modo associado, refletindo na escrita (na maioria das vezes errada), refletindo no gestual, quase sempre incompreensível, começava, por simples bom senso, o bilingüismo em minha vida. Um bilingüismo incipiente.
    Fernandes (1990, p.56) explica o que vem a ser o bilingüismo incipiente e, ao mesmo tempo, mostra, coincidentemente, por meio de sua argumentação, o que vivenciei em função dessa incipiência:
    Na verdade, temos, no Brasil, como em muitos outros países, a predominância do bilingüismo incipiente (...) Não sendo a língua de sinais reconhecida oficialmente como meio de ensino/aprendizagem e, havendo muito poucos profissionais com o domínio suficiente dessa língua, a ponto de poderem utilizá-la como recurso didático, ao surdo que tem a língua de sinais como sua língua natural resta a opção de negar-se à comunicação em português ou limitar-se a expor, em sua modalidade escrita, a única estrutura que conhece, de fato, a da língua de sinais.
    Minha mãe foi uma das poucas professoras, da época, a integrar um grupo de professores com o objetivo de estudar a estrutura e a gramática da língua de sinais. Adotava, evidentemente, o discurso oralista, mas percebia que a natureza do indivíduo surdo o levava, invariavelmente, para a comunicação por meio da língua de sinais. Perguntada se manteria essa postura de desbravamento caso não tivesse um filho surdo, respondeu evasiva e com sua habitual objetividade: “não sei; não vivenciei esta situação e nunca tive tempo para pensar nela”.
    Torna-se importante lembrar que, embora houvesse, neste período, o racha da abordagem oralista em muitos países, ainda havia resíduos dessa abordagem educacional no INES. Mas, em seus corredores, na hora do recreio, na hora da merenda, havia um show de mãos tentando a comunicação; muitos dos professores da época não sabiam a língua de sinais e muito menos a estudavam e/ou a estimulavam. Em razão disso, até hoje, em tempos de filosofia bilíngüe no INES, ainda encontramos professores sem o conhecimento fluente da língua de sinais. Os surdos não mais aceitam essa condição. A formação de professores surdos ou ouvintes que se comuniquem na língua de sinais é uma das principais bandeiras dos surdos, por meio da chamada “educação de surdos verdadeira”, exposta no site principal da FENEIS.

Sugestões de outros títulos:

carregando...