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Literatura infantil

ler, contar e encantar crianças

Elias José
ISBN: 978-85-7706-022-1
ed. 120 p.
O autor provoca a nossa vontade de ser contador, de ler e encantar todas as crianças do mundo com a fantasia, a poesia, a ficção. A narração é uma arte que diverte, educa, ensina, desperta a fantasia nas crianças e estimula a escrita e a leitura literária, escreve o poeta. O que deve acontecer de forma indireta, simbólica e não em tom didático ou discursivo. Leitura recomendada a professores do Ensino Fundamental, bibliotecários, contadores de história, gestores e todos os envolvidos em ações de fomento à leitura.
  • Sumário
    A literatura e o imaginário da criança

    Leitura: prazer, saber e poder

    A importância da poesia e dos livros no universo infantil

    A possível releitura poética do mundo

    A arte de contar e cantar

    A arte de ler oralmente e de contar histórias

    Sobre canções e leituras

    Três vozes femininas da poesia infantil e juvenil de Minas Gerais

    Como me tornei um escritor
  • Trecho
    Começamos a ler o mundo muito cedo. Ainda no útero materno, já nos chegam os primeiros sinais do mundo, não gráficos, mas táteis e sonoros Quando abrimos os olhos e quando choramos pela primeira vez, estamos reagindo diante do novo. Buscamos os primeiros sinais do livro-mundo, expresso no susto inicial. Depois, já adultos, contamos oralmente, escrevemos, pintamos, fazemos música e outras artes com os elementos lidos na infância. É impossível, através das várias linguagens, transcrever esta leitura de forma exata, sem fantasias ou ficção. Ao falar de sua infância, o que o adulto faz, na verdade, é uma releitura. Tanto relêem os artistas como aqueles que recontam oralmente as suas histórias. O que o artista faz de especial é recontá-la poeticamente, provocando emoção e beleza.
    Ler o mundo de ontem era mais fácil. Tudo era mais simples, mais calmo e as famílias eram mais estruturadas. Ler o mundo de hoje, com os seus terrores e encantos, ficou bem mais complicado. Mas mais do que nunca, é preciso ler o mundo. E ler o mundo nos textos e obras de arte.
    Se pedíssemos que o ouvinte parasse de ouvir esta comunicação para escrever rapidamente palavras ligadas ao seu mundo da infância, teríamos muitas surpresas, doloridas ou agradáveis. Por certo emergiriam, do fundo da memória, palavras que mostram os nossos cinco sentidos facilitando e enriquecendo esta releitura. O nosso poder de ficcionar e a maneira que todos temos de encarar a infância como um tempo mítico não permitirão uma leitura realista, fotográfica.
    Para perceber como muitos autores adultos releram o seu mundo infantil, vamos iniciar este capítulo com um fragmento de "“A importância do ato de ler”" (1982), do mestre Paulo Freire:

    A leitura do mundo precede a leitura da palavra (...)
    A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras.

    “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. E que releitura poética Paulo Freire faz de sua infância? A casa aparece primeiro num plano geral, depois vêm os cômodos mais importantes para o menino que ele foi. O espaço principal, no entanto, é o quintal, centro das vivências mais importantes do menino. Mundo de suas primeiras leituras. Leituras frutos de atividades perceptivas: do ver, do ouvir, do tocar, do cheirar e do sentir o gosto. No “trato” com pessoas e coisas, que tinham nomes, que poderiam ser pronunciados e, também, representados por sinais escritos, vem a possibilidade da palavra fluir naturalmente. E como o menino alarga a sua leitura de mundo, chegando a reproduzir as palavras que davam nome às pessoas e coisas? No relacionamento com os pais e irmãos mais velhos, que sabiam dar nomes às coisas do mundo. De forma natural, quase brincando, ainda no quintal. De forma muito particular e seletiva, “com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais”. E duas metáforas fecham o texto, mostrando a forma mais natural e subjetiva, escolhida pelo menino para transcrever o mundo lido: “O chão foi o meu primeiro quadro-negro; gravetos, o meu giz”.


    Páginas 35 e 36 do livro “Literatura infantil: ler, contar e encantar crianças”, capítulo “A possível releitura poética do mundo”.

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