Educação Infantil

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Geografia e Educação Infantil

espaços e tempos desacostumados

Jader Janer Moreira Lopes
ISBN: 978-85-7706-116-7
ed. 112 p.
Esta obra permite ao leitor perceber, em toda a sua concretude, como as crianças compreendem os espaços e os lugares em que habitam e o quanto são produtoras de cultura. Para o autor, conceber a Geografia da Infância é dar-se conta de que as crianças nascem em paisagens preexistentes, vivenciam territórios, lugares e outras dimensões espaciais e que neles deixam suas marcas, provocando transformações. Essas vivências podem e devem ser trabalhadas com elas por meio de uma constelação de ações educativas e da exploração de linguagens que podem ajudá-las a ter mais e mais curiosidade sobre as questões da Geografia. Destacam-se a escrita sensível e recheada de poesia do autor, a sua revisita a teóricos que oferecem contribuições sobre o tema, bem como os valiosos prefácios de Rogério Haesbaert e Vera Vasconcellos, especialistas de renome na área.
 
  • Sumário
    Prefácio 1  
    Vera Vasconcellos
     
     Prefácio 2

     Rogério Haesbaert
     
    O menino que não gostava de cores órfãs
    e o pequeno visitante
     
    Infâncias
     
    O sentimento moderno de infância
     
    Contribuições da Sociologia da Infância
     
    A criança e sua condição histórico-geográfica
     
    A Geografia da Infância:
     contribuições de diferentes teóricos
     
     Desdobramentos em termos
     do currículo da Educação Infantil
     
    A Geografia na Educação Infantil:  
    espaços e tempos desacostumados

    Sobre andanças e andantes
     
    O pequeno visitante e sua odisseia
     
    Referências
     
  • Trecho
    Trecho do capítulo 1: O menino que não gostava de cores órfãs
    e o pequeno visitante
    Jader Janer Moreira Lopes

     
    Atiraram tinteiros no tigre. E enquanto seus gritos arranhavam as claras vidraças azuis, era lindo ver como ele ia virando pantera: uma linda pantera toda preto e ouro! Encostaram escadas no elefante. Dançaram em cima do elefante. O mais piquininho fez um gostoso xixi no lombo do elefante. Mas como era impossível esgotar a paciência do bicho, apearam todos, aos trambolhões, e foram ver o que fazia, à beira do banhado, o crocodilo verde. O crocodilo abriu uma boca deste tamanho, depois fechou-a de súbito - plaque - como quem fecha um atlas, terminada a maçante aula de Geografia. E o mais piquininho ficou sem cabeça 
    (Mario Quintana em Crianças gazeando a escola, 2005).   


    Há dias procuro palavras para começar este livro. Trata-se de uma obra sobre Geografia e crianças. Vasculho minhas memórias e centenas de anotações que tenho em busca delas. Achar os poemas para as epígrafes e outras partes parece mais fácil. A poesia diz com mais felicidade aquilo que queremos. Muitas crianças passam por mim, muitos lugares também, tempos e espaços desiguais se enroscam. As tintas do tinteiro pingam no papel e mancham anotações dessemelhantes a cada palavra escrita. Encontro crianças brincantes brincando seriamente com as tintas. 
    Uma delas me diz: Gosto de maçãs roxas e bananas vermelhas. As outras riem: Ele adora embaralhar cores! Nessas cores embaralhadas, lembro que crianças não gostam de cores órfãs. Foi esse menino embaralhador que enunciou: Cor não pode ficar sozinha. Um adulto fala: É assim mesmo, criança adora trocar cores, não aprendeu ainda a cor certa de cada coisa! Mas cor certa não é órfã Tão certinha e pronta que não precisa de ninguém Aquele menino gostava mesmo era da cor roxa. Parecia até que cor tem gosto e cheiro e nem tem tanta cor assim. Talvez precise de óculos... tão pequeno e já enxerga estranho insistia aquela pessoa que, de tão alta, parecia encostar-se à luz pendurada no teto. A criança achava engraçado, ria disso: Será que nunca viram a água do mar Quando está tudo junto, é azul, verde, mas, quando chega perto, tem cor da mão e do pé da gente. Gente que quase encosta na luz do teto é tão estranha às vezes, nunca deve ter reparado no sol que não deixa nenhuma cor sozinha, passeia com várias: amarela, laranja, vermelha... Um dia me peguei perguntando: quem convidou a cor roxa para ter essa cor Culpa desse menino. Eu que já tinha decorado todas as cores do mundo, tive que desaprender. Comecei a reparar com que cores eu andava olhando as coisas do mundo.
    Este livro é sobre crianças, sobre adultos e sobre muita gente. O seu tema central é a Geografia como saber, conhecimento e as suas possibilidades e presença na Educação Infantil, sobre histórias que se cruzam com a minha própria trajetória de formação nesses anos de trabalho com bebês e crianças pequenas, pequenas no tamanho, mas gigantes em sua capacidade constante de criar e inventar o mundo (CUZZIOL, 2014). 
    Este livro é também fruto de minha trajetória de pesquisa constituída durante anos de trabalho com a Geografia na Educação Infantil e as ações desenvolvidas no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em Geografia da Infância (GRUPEGI) e suas interfaces com o NEIC, O NUTHIC, o GPPIN, o NUMPEC, o ATOS,onde tudo começou. 
    Pretendo narrar aqui sobre as ações, as caminhadas pelo Brasil e por outros lugares desse grande mundo, às vezes difícil de ser alçado por sua constante complexidade e desafios quando falamos em crianças, seus espaços e suas espacialidades. Para isso, trago por meio do meu dizer os de muitas pessoas que comigo fizeram e fazem essa andança, um pouco do ser e estar, de um saber e fazer nesses locais que acolhem crianças de zero a cinco anos de idade. São existências produzidas e vividas em muitos espaços de Educação Infantil e de infâncias com as quais convivi e permitem essa autoria.
    Disponibilizarei aqui narrativas surgidas ao longo de diversas pesquisas, orientações, seminários, congressos, conversas em ambientes variados. São múltiplas vozes que tento materializar neste livro, mesmo sabendo do limite imposto pelas palavras impressas. 
    Um leitor mais atento poderá encontrar aqui algumas reflexões já presentes em outros textos, complementadas, porém, por novas argumentações. Essa conciliação foi intencional, como forma de retomar considerações antigas, mas que são sempre pertinentes. Fui convidado a cavar lembranças e a me apresentar nesses encontros de espaçotempo que forjam memórias arroladas em meu passadopresente. 
    O contorno conferido por qualquer obra que se pretende tornar impressa sempre nos leva a fazer escolhas. E foi o que tive que fazer aqui, optando por trazer alguns referenciais, alguns autores, algumas narrativas, o que significou deixar outras para trás. Esse deixar é como um fluir da página: ao ler essas páginas, lembre-se de que elas continuam para além das margens do papel. O limite do recorte da página, o espaço em branco após a impressão, pode servir como um ponto de encontro entre autor e leitor, um local de anotações, de alteridade e de autoria, para marcar ou grafar. São escolhas que permitem outras escolhas.
    Assumo que muitas pessoas, coisas e lugares ficaram de fora dessas páginas, mas todas as narrativas foram inspiradas em acontecimentos ocorridos em algum espaço desse país e de outros que serviram para o engenho desta obra: páginas dispostas a conversar com o leitor numa disposição que prioriza o olhar das crianças, sobretudo, as geografias que elas constroem. Todos nós, que convivemos com as crianças e seus mundos, sabemos o quanto são circunstanciais, efêmeras e intensas suas vivências, o quanto seus sistemas referenciais não podem ser aprisionados em tipologias predeterminadas ou previamente ajustadas porque são sempre reveladores de criação. (...)
     

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