Fundamentos Pedagógicos

Fundamentos Pedagógicos
Alta resolução +
De R$ 45,00 por R$ 36,00

Formação de professores

compartilhando e reconstruindo conhecimentos

Dóris P. Vargas Bolzan
ISBN: 978-85-8706-352-6
ed. 168 p.
A partir de uma consistente fundamentação na teoria de Vygotski e Bakhtin, Dóris Bolzan ressalta a importância de um contexto interativo e da presença de um mediador competente em programas de formação continuada de professores. Sugere e orienta a organização de grupos de estudo em escolas devido à relevância desses momentos para o aperfeiçoamento pedagógico. Ilustra as considerações teóricas com exemplos práticos e depoimentos de professores que participaram de encontros de formação organizados com base nos princípios que defende, mostrando a evolução dos professores participantes.
  • Sumário
    Prefácio

    Formando professores reflexivos
    Construções e desconstruções na formação profissional
    Professor reflexivo: uma reconstrução
    O papel do professor
    O conhecimento pedagógico e o conhecimento escolar
    Construindo a cultura escolar

    Interação e mediação:
    olhares vygotskianos e Bakhtinianos

    A abordagem sociocultural
    Atividade, contexto interativo
    e social e os processos de mediação
    Atividade reprodutora ou criadora
    Problema da consciência
    Aprendizagem e desenvolvimento: o processo de
    interação e a zona de desenvolvimento proximal
    A interação e a utilização de estímulos auxiliares
    Linguagem e pensamento
    Interação verbal e atividade mental
    Discurso monológico x dialógico:
    a construção do enunciado
    A produção do conhecimento
    –Conhecimento escolar
    –Construção de conhecimento e atividade criadora
    –Conhecimento pedagógico
    –Conhecimento compartilhado
    Linguagem como instrumento de mediação
    Atividade de estudo e o processo reflexivo

    Um estudo sociocultural: trilhas percorridas
    Explorando narrativas: a vez e a voz dos professores
    Montando o contexto
    Compartilhando conhecimento: as reuniões
    Buscando dados: instrumentos e procedimentos
    Organizando e construindo as categorias de análise

    Novos passos em direção
    ao conhecimento compartilhado

    Resistência: movimento necessário
    para tomada de consciência
    Ruptura da resistência: primeiros passos
    Tomada de consciência: compartilhando
    e reconstruindo conhecimentos

    Uma rede de interações e mediações
    Uma rede de relações
    A construção mediada dos saberes
    e dos fazeres pedagógicos
    A transformação da prática pedagógica
    Apontamentos em aberto

    Referências
     
  • Trecho
    FORMANDO PROFESSORES REFLEXIVOS
     
    Já é outono, apesar da insistência do verão... A temperatura quente e úmida permanece, causando um certo desconforto ao longo dos dias. A agitação das crianças exige das professoras atenção redobrada. Isso fica evidente, quando nos encontramos, para conversar sobre um possível trabalho conjunto. Os comentários surgem, inevitavelmente, com um tom de queixa e desassossego. Gostaríamos de vê-los mais calmos!! Mas é impossível com tanto calor e um pátio sem infraestrutura! O bebedouro fica no corredor e é um entra-e-sai daqueles! Esse clima, do início do período letivo, revela a inadaptação à rotina escolar tão comum no retorno de um longo período de férias. Sei que essa rotina só será retomada aos poucos, quase como um exercício de repetição que serve para que nos acostumemos ao novo ritmo. Tal exercício se repete para alunos e professoras. Cumprir os horários de entrada e saída, fazer um breve intervalo para o lanche, correr e pular, exaustivamente, pelo pátio, retornando tranquilamente para a sala de aula, para fazer as atividades preparadas pelas professoras, compõem essa rotina. Às vezes, tenho a impressão de que essa tarefa é um suplício para todo o grupo. Mas, pouco a pouco, a rotina vai sendo incorporada por todos e tudo volta a ser como já foi anteriormente. Observo que todo o começo parece uma redescoberta: quem somos e o que fazemos? Alunos e professoras, trabalhando juntos, uns organizando a lição, outros tentando resolvê-la. Assim, a escola conduz, a cada período letivo, seus alunos e professoras, a fim de que realizem a tarefa de aprender e de ensinar. Procuro, diante disso tudo, entender um pouco dessa rotina e confesso que, em alguns momentos, nada disso é muito claro. Encontro-me com as professoras. Durante esses encontros, ainda que breves, procuro compreender quais as suas preocupações. Nossas conversas são marcadas por dúvidas e incertezas colhidas no cotidiano. Isso é revelado, quando falam sobre as dificuldades de seus alunos para acompanhar o trabalho desenvolvido na sala de aula. Aproveito a oportunidade, para perguntar-lhes sobre suas expectativas para sua série. Recebo, como respostas, mais queixas. Eles já deveriam saber copiar sem comer os pedaços das palavras, eles não conseguem interpretar as atividades, meus alunos não leem sem ajuda (...). Paro e me pergunto: quem é responsável pelo mau desempenho dessas crianças? Precisamos de um culpado ou precisamos achar soluções? Por onde começar? Quem de nós, ao ingressar em uma escola, consegue compreendê-la sem fazer uma minuciosa leitura de seu cotidiano? Quem tem respostas para tantas dúvidas, desencontros e enganos? Proponho que comecemos de algum modo!! Talvez reuniões, quem sabe discussões, de fato não temos ainda um caminho, reconheço!!! Nossas reuniões ainda não são sistemáticas e percebo que tantas perguntas
    incomodam o grupo. A diretora aproveita o momento, para dizer que espera que eu possa trazer alguma ajuda, para que os problemas sejam amenizados. Eu, por minha vez, sugiro que busquemos, juntas, alternativas para o que está acontecendo. Há uma expectativa de resolução dos problemas de aprendizagem, assim nominados por elas. Disponho-me a observar as atividades desenvolvidas na sala de aula, para, depois, discutirmos a respeito do que fazer com as crianças. Mas isso não é aceito de imediato. Sugiro, então, conhecer as crianças que são, para elas, aquelas que não aprendem. Proponho um breve diagnóstico, uma testagem sobre as concepções infantis acerca da leitura e da escrita. Queria saber que antecessores cognitivos estavam presentes no processo dessas crianças e, consequentemente, como as professoras conseguiam compreender a importância destes aspectos para consolidação desse processo – leitura e escrita. Sentia que a escola tinha uma necessidade iminente de entender o porquê de tantas crianças apresentarem dificuldades de leitura e de escrita mesmo em séries mais avançadas (3ª e 4ª séries). O ano letivo se iniciava e as turmas apresentavam um número expressivo de crianças com dificuldades de aprendizagem. Assim, coletei dados, através de testagens com as crianças sobre os aspectos formais do grafismo infantil e suas interpretações. Os dados obtidos foram interessantes, as crianças escreviam o que lhes era solicitado, mas manifestavam todo o tempo que essas coisas não tinham sido ensinadas pelas professoras. De maneira geral, as professoras não esperavam um excelente desempenho de seus alunos, entretanto, tinham certeza de que eles demonstrariam algum tipo de resultado positivo, no que diz respeito ao que elas tinham ensinado – especialmente o domínio de palavras-chave, no caso da alfabetização e da escrita de frases. As professoras, em sua totalidade, demonstraram interesse em saber sobre o desempenho dos seus alunos, para poderem confirmar se estavam fazendo um bom trabalho com eles. Desse modo, em continuidade ao proposto, foram oferecidos textos para leitura e discussão posterior, bem como um projeto de pesquisa nesse campo que, anteriormente definido, sofreu reformulações, a partir das necessidades e experiências vividas no ambiente escolar. As professoras prepararam suas leituras e retornaram com interesse para a discussão dos dados do diagnóstico. Os debates giraram em torno das conquistas dos alunos e das possíveis dificuldades, para aprenderem a ler e escrever. Como poderiam lidar com estas questões em sala de aula? Apresentei alguns dados coletados sobre as concepções dos alunos, na tentativa de esclarecer o que surgiu como problematização e combinei novo encontro que só aconteceu depois de uns dois meses. Observei que as tentativas de encontros mais sistemáticos tornaram-se difíceis. Havia uma resistência velada que se manifestava, quando as reuniões eram marcadas e desmarcadas sem grandes justificativas. Percebia que os elementos que trazia mobilizavam as professoras e, ao mesmo tempo, as deixavam sem saber exatamente o que se pretendia. Sentia que a proposta de desenvolver um estudo de inserção na escola mexia com o corpo docente. Por ser professora das práticas de ensino e da metodologia da alfabetização, tinha um compromisso com as questões em pauta, mostrando- me mobilizada pelos problemas apontados. Contudo, só ao final do período letivo, do ano em que iniciei meu trabalho na escola, quando o projeto sobre os antecessores cognitivos para leitura e escrita foi apresentado a todo o grupo, foi que as professoras mudaram sua atitude e setornaram receptivas. Todos estes problemas, dúvidas apresentadas e atividades realizadas foram me levando a pensar em uma forma mais orgânica e produtiva de colaborar para sua superação, a partir de meus próprios estudos e reflexões sobre o conhecimento pedagógico. Assim, organizei e apresentei o projeto que, tendo sido discutido com as professoras, começou a ser implementado. Isso ocorreu, quando entenderam que meu objetivo era compreender em que medida a constituição de uma rede de interações e de mediações poderia favorecer a construção do conhecimento pedagógico compartilhado, a partir da discussão sobre as situações práticas desenvolvidas em sala de aula. Foi o assistir às aulas, levar materiais para as professoras, participar de reuniões, discutir problemas práticos, fazer parte do cotidiano escolar que, em alguma medida, me permitiu entendê-lo melhor, compartilhando com as professoras de buscas e achados. Penso que, ainda hoje, muitas perguntas continuam sem resposta, apesar de termos trilhado caminhos possíveis em direção a novas construções. (Notas de campo)

Sugestões de outros títulos:

carregando...