Inclusão e Educação Especial

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Conhecimento e margens

ação pedagógica e pesquisa

Claudio Roberto Baptista et al. (Orgs.)
ISBN: 978-85-7706-043-6
ed. 192 p.
Publicado em conjunto com o livro "Avanços em políticas de inclusão", enriquece a discussão, apresentando temas que reconfiguram a ação pedagógica e a pesquisa em educação especial, tais como o ensino de artes e o letramento visual, a formação de professores de alunos com necessidades educacionais especiais na educação infantil, a escolarização de sujeitos com autismo e psicose infantil e possibilidades da Comunicação Alternativa em inclusão.
  • Sumário
    Introdução
    Conhecimento e margens: para iniciar o diálogo
    Claudio Roberto Baptista (UFRGS)
    Denise Meyrelles de Jesus (UFES)

    Construções em torno de um vazio:
    uma leitura sobre o diagnóstico e seus
    "“modos de usar"” na escolarização de
    sujeitos com autismo e psicose infantil

    Carla Karnoppi Vasques (UNISUL)

    Diagnóstico psicopedagógico & escolarização:
    um estudo acerca das (im)possibilidades

    Hiran Pinel (UFES)

    A pesquisa em educação especial
    e a formação de professores: interlocuções
    com a perspectiva walloniana

    Rita de Cássia Barbosa Paiva Magalhães (UECE)

    Norbert Elias: contribuições para a pesquisa
    em educação especial/inclusão escolar

    Reginaldo Célio Sobrinho (FAESA)

    A constituição da subjetividade
    de pessoas com deficiência: contribuições
    dos estudos de Norbert Elias

    Ivone Martins de Oliveira (UFES)

    O jogo, a imagem, o movimento:
    faces da pesquisa em arte e educação especial

    Lucia Reily (UNICAMP)

    Sobre inclusão, formação de professores
    e alunos com necessidades educacionais especiais no contexto da educação infantil

    Sonia Lopes Victor (UFES)

    A pesquisa na sala de aula: um caminho acidentado Leila Regina d'’Oliveira de Paula
    Nunes (UERJ)
    Maria Cristina Tavares Danelon (UERJ)

    Reflexões sobre o caminho da opção teórico-metodológica da pesquisa em educação
    Anna Maria Lunardi Padilha

    As investigações do Grupo de Pesquisa de
    Inclusão/Exclusão Escolar e Desigualdades Sociais sobre a escolarização de alunos com deficiência

    José Geraldo Silveira Bueno (PUC-SP)

    Análise do uso da entrevista em
    dissertações e teses em educação especial

    Eduardo José Manzini (UNESP)
  • Trecho
    O primeiro impacto da cegueira em sua vida
    Trecho retirado do Cap. 5 págs. 85-87

    O estudo de Delazari (2006) indica um contexto de relação entre deficientes visuais e/ou cegos e videntes perpassado por processos de exclusão, contexto que interfere na imagem que esses sujeitos constituem de si como cegos. Embora a narrativa do Sr. João se caracterize por uma autoimagem que se configura em uma direção distinta daquela dos grupos que discriminam, percebemos, em trechos de seu relato sobre momentos que antecedem a cegueira, pontos de interseção com a visão desses grupos.
    Ao falar pela primeira vez sobre o momento em que ficou cego, o Sr. João demonstra certa emoção:

    Com 20 anos eu me casei. Muito cedo eu fui pai (pausa, pigarreia) e com 25 (pausa, pigarreia) anos, né?... eu perdi a visão. Mas essa trajetória para eu não perder a visão me levou a procurar todo o recurso que, na época, era possível e dentro da minha condição financeira, né? Fui para o Rio, para São Paulo, Belo Horizonte, Dr. Hilton Rocha, essas sumidades aí na questão da (pausa, pigarreia), da... da oftalmologia, eu procurei, né? E, infelizmente, só foi detectado que o que estava me levando à cegueira... quando eu tinha dez por cento só da visão. Então eu fui vítima da toxoplasmose, certo?
    Já com a visão na penumbra... já com a escola de datilografia... eu lembro que, quando eu saía à noite de lá da escola, eu olhava as lâmpadas na rua, eu via, assim, aquele... aquele... vermelho, tava, assim, já um tomate... entendeu? Aquela cor avermelhada. Eu ia me orientando pelos postes, pelas luzes, até chegar em casa... porque, na verdade... é... na época... é... (pausa mais longa) o quanto mais eu pudesse esconder, né?... esconder da sociedade que eu estava ficando cego... naquela... né?... então eu... evitava transparecer o máximo... vamos dizer assim... que eu estava ficando cego total.

    E, então, eu, com dez por cento de visão, já apresentando descolamento da retina e tal, eu fiz cirurgia no Rio, né? Para fazer a correção. Naquele tempo, não existia laser, era um sistema convencional, muito agressiva a cirurgia... bisturi, essas coisas todas... E aí resultou que eu fiquei cego! (frase pronunciada num ritmo bem mais rápido do que o que vinha imprimindo até então à sua narrativa).

    Ao se perceber quase cego, o Sr. João procura esconder esse fato daqueles que estão à sua volta. Seu relato deixa transparecer o impacto pelo avanço da cegueira. Receio? Incômodo? Dor? Sentimento de perda? Sejam quais forem os afetos que perpassaram sua tentativa de esconder que estava "“ficando cego"”, Elias (1994, p.35-36) nos auxilia na compreensão de que esses afetos se produzem "“(...) no indivíduo mediante a interação com os outros, como coisas que compõem seu “"eu"” mais pessoal e nas quais expressa, justamente por essa razão, a rede de relações de que ele emergiu e na qual penetra"”. Mesmo o ato de não deixar transparecer a perda da visão e os afetos que o acompanham tem sua origem na relação com os outros, provavelmente sob a influência de imagens de processos de exclusão da pessoa cega de certas esferas da vida social.
    Discorrendo sobre a maneira como o indivíduo interioriza padrões de conduta e mecanismos de autorregulação em uma dada formação social, Elias (1994, p.31) nos lembra que “"(...) toda a estrutura de seu autocontrole, consciente e inconsciente, constitui um produto reticular formado numa interação contínua de relacionamentos com outras pessoas"”. Não se constituindo em um ser “"desligado do mundo"”, o Sr. João revela, em sua narrativa, a interação com uma autoimagem que discrimina o cego.
    Ao analisar o percurso de reformulação subjetiva de sujeitos que ficaram cegos na adolescência ou na idade adulta, o estudo de Delazari (2006) também evidencia o drama desses sujeitos, em sua condição de cegos, interagindo com a imagem de cego que possuíam antes da cegueira: a de pessoas inferiores, incapazes e desvalorizadas, enfim estigmatizadas. De forma semelhante à narrativa do Sr. João, o depoimento de um dos sujeitos entrevistados por Delazari (2006, p.124) revela, de modo pungente, a tensão no percurso de reformulação subjetiva em frente à cegueira: “"Quando você começa a usar a bengala você tem aquele sentimento de inferioridade, de se sentir imprestável. Eu relutei muito em aceitar. Por dentro uma voz dizia que não, não"”. Juntamente com a necessidade de uma reorganização da percepção e dos hábitos de maneira a se locomover, se cuidar e se manter, como um cego, evidencia-se, para muitos, a necessidade de uma mudança no próprio modo de ver a cegueira e a pessoa cega.
    A narrativa do Sr. João retrata um percurso que busca romper com essa imagem. seu depoimento coloca em destaque um permanente esforço de prover o próprio sustento e o de sua família, num primeiro momento e, depois, também, de auxiliar na criação de melhores condições de vida, tanto para pessoas cegas e/ou deficientes visuais como para videntes. No transcorrer de sua narrativa, não constatamos uma adesão à autoimagem que estigmatiza o cego, ao contrário, identificamos, em suas ações e em suas palavras, um investimento na construção de um outro modo de ver a cegueira e se ver como cego. Nesse contexto, destacam-se as figurações nas quais se inseriu e/ou foi inserido.

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