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respeitar primeiro, educar depois

Jussara Hoffmann
ISBN: 978-85-7706-031-3
ed. 184 p.
Assim como as peças que formam um mosaico, este livro é composto por textos escritos sobre temas como formação e qualificação de professores, inclusão, alfabetização, leitura e formação de leitores, entre outros. O fio condutor dos capítulos é a educação inclusiva e as contribuições que a avaliação mediadora pode trazer no sentido de respeito à diversidade do contexto educacional brasileiro. Destacam-se duas entrevistas, nos capítulos finais, sobre temas polêmicos, tais como a questão das provas e das notas em avaliação, que revelam importantes posicionamentos da autora.
  • Sumário
    Introdução
    Marcas de uma trajetória


    Respeitar primeiro, educar depois

    Procuram-se professores

    Um passo pra frente, dois pra trás

    Um apagão na educação

    Os pais na escola: participar ou decidir?

    Professor sem stress?

    Volta às aulas: alunos ou pessoas, professor?

    Tempo de admiração e não de reprovação

    Acesso ou permanência?

    Enturmação

    A escola quer alunos diferentes?

    Mãe, passa pela minha escola?

    Relatórios de avaliação 1:
    compreender e compartilhar histórias


    Relatórios de avaliação 2:
    do agir ao pensar na formação docente


    Avaliação mediadora é formativa?

    Educar primeiro para não aprisionar depois!

    Infância atropelada

    Dizer não ou educar para o não?

    Leitura e avaliação:
    nas entrelinhas dos textos e contextos


    Brasil: um país de leitores?

    Aprender a ler ou gostar de ler?

    Entrevista: por uma mudança efetiva da avaliação

    Entrevista: práticas avaliativas
    e instrumentos de avaliação
  • Trecho
    Introdução

    Marcas de uma trajetória
     
    Para aqueles a quem nunca encontrei e que não conhecem minha história, retomo algumas experiências da caminhada feita ao longo desse tempo. Vivências são como tatuagens: marcas difíceis de se remover. 
    Nasci em Bagé, cidade da campanha do Rio Grande do Sul. A quinta filha de sete irmãos, quatro mulheres e três homens, estudei para ser professora como o fizeram minhas outras irmãs. Vim com nove anos para Porto Alegre. No Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, de religiosas franciscanas e só para meninas, tornei-me PROFESSORA e vivi papéis decisivos para a escolha de alguns rumos profissionais. Fui aluna, estagiária, professora e coordenadora pedagógica ao longo de 19 anos de vida nessa escola. Minha experiência inicial no magistério foi maravilhosa, entre envolvente e inquietante. Exercer o magistério me deu enorme prazer. A relação estabelecida com as crianças foi sempre 
    intensa, de amizade e cumplicidade que se estende aos dias de hoje quando as encontro – uma bonita descoberta do ensinar e do aprender com elas.
    Considerando o meu entusiasmo pela carreira que iniciava, o curso de Letras foi decepcionante. Buscava a licenciatura e encontrava o bacharelado: o latim, a crítica literária, a filologia... Não constituíamos, como alunos, grupos capazes de reivindicações e calávamos diante de um curso estruturado para a formação de críticos literários, mas formado, em sua maioria, por estudantes em busca de disciplinas que auxiliassem a ensinar a ortografia, a gramática, a literatura, além de uma consistente formação pedagógica. Natural a impressão que me causou a passagem pela Faculdade de Educação da UFRGS. As disciplinas que aí cursei, principalmente a psicologia e a didática, interessaram-me muito pela ressonância com o que vivia já sendo professora, provocando-me novos olhares sobre a área da educação e fazendo-me buscar outros rumos.
    Formada em Letras, casada e já mãe de dois meninos, passei a exercer múltiplas funções, não apenas no colégio particular, mas também em escola estadual de 1º e 2º graus (como eram denominados o Ensino Fundamental e Médio), em busca, talvez, de contornos mais nítidos para minhas escolhas. Vivi com intensidade nessas escolas, ao longo de alguns anos, as funções de professora de português e de disciplinas do magistério (didática de língua portuguesa), de regente de turmas e de coordenadora pedagógica da pré-escola, das séries iniciais e do 2º grau – funções exercidas simultaneamente na escola particular.
    Delinearam-se, por meio dessa pluralidade de experiências, questões primeiras sobre posturas pedagógicas e práticas avaliativas que, desde então, provocam-me desassossego. 
    Em 1978 já tinha a experiência de dez anos de magistério. Minhas vivências profissionais haviam sido fortemente direcionadas para questões pedagógicas mais amplas e complexas. Natural, portanto, que procurasse o Mestrado em Educação e não em Letras. Foi o que busquei na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desde meu ingresso no Pós-Graduação, fiquei entusiasmada com a área de pesquisa em avaliação em que me inseri por me parecer instigante e aberta a investigações sobre as concepções e práticas vividas nas escolas em que trabalhara. Por meio desses estudos, poderia fazer o resgate reflexivo de minha ação docente e da ação supervisora que muito haviam girado em torno da problemática da avaliação. Em dois anos cumpri todos os créditos e fiz a defesa de tese tal o entusiasmo com que me envolvi nesses estudos. 
    A avaliação da aprendizagem, nos anos 90, representava um grande desafio aos educadores de todo o país pelas críticas severas sobre essa prática nas escolas (considerada uma ação controladora, autoritária). Na época poucos estudiosos brasileiros se atreveram a desenvolver pesquisas nessa área. Hoje percebo que esse passado é ainda presente, que avança em direção ao futuro que agora venho narrar.
    Em 1985 entrei por concurso na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Curiosamente, o tema da prova foi  "avaliação educacional". Defendi, então, o princípio que vem "sendo a marca mais forte de toda a minha trajetória profissional": o papel mediador do professor neste processo, recebendo a aprovação unânime dos examinadores quanto às críticas que fiz em relação à avaliação classificatória. 
    Como professora universitária, envolvi-me em primeiro lugar com a formação de professores em Educação Infantil, compartilhando com as estagiárias, em creches 
    públicas, assistenciais e particulares, experiências que elas realizavam com as crianças – uma rica vivência ao longo de doze anos. Percebi, a partir do trabalho com bebês de classes socialmente desprivilegiadas, o quanto a sociedade descrê de suas possibilidades e aposta precocemente em seu fracasso e passei a contribuir com meus estudos para mudar essa realidade. Esse trabalho exigiu-me grande aprofundamento teórico, principalmente sobre as teorias de Freire, Piaget e Vygotsky, e deu origem a novos olhares sobre a avaliação/mediação.  
    A valorização à educação dos zero aos seis anos, as questões de acesso e permanência na escola, o papel mediador do professor constituem, desde então, os eixos temáticos principais na continuidade de minhas investigações sobre avaliação do desempenho escolar.
    Não foram fáceis os primeiros tempos dessa discussão. Apesar de esse tema ser muito debatido entre os professores nos anos 90, encontrei-me bastante solitária em sua defesa, o que me exigiu persistência e tenacidade diante da crítica de muitos acadêmicos quanto a estudos e pesquisas na área. Por isso, o nome do meu primeiro livro: "Avaliação: mito & desafio". Ao publicá-lo, desafiava, de fato, o mito de "não se falar em avaliação" na academia. 
    Ao final dos anos 90, tornou-se mais e mais pungente a necessidade de se discutir a problemática da avaliação educacional nas escolas. O despertar de uma consciência político-pedagógica provocava um olhar cada vez mais crítico dos educadores sobre a prática avaliativa seletiva e classificatória. Escolas e professores passaram a buscar orientação para transformar essa prática, fato esse que me levou a atender muitos convites para seminários, encontros e cursos de formação de professores sobre o tema em todo o país. Pesquisando, debatendo com eles, escrevendo sobre um assunto que me apaixonava, desencarcerei os fantasmas da avaliação, provocando narrativas de casos dos professores, muitas perguntas e desabafos. Provoquei-os a falar para assim poder objetivar a sua fala, refletir, analisar. Ouvi suas histórias e as transformei em estudo de casos; sugeri leituras como fundamentação às suas próprias críticas; aprofundei-me na teoria. A partir da análise de seus mitos e representações, do resgate do seu cotidiano, procurei constituir questões, organizar espaços e textos para reflexão no sentido de desafiá-los a ampliar suas perspectivas sobre a avaliação. Depois de 40 anos ouvindo que "não dá para mudar" o sistema de avaliação que se pratica porque "outros não deixam", venho insistindo para que cada professor faça "o jogo do contrário": procure ver os alunos de outros jeitos, pense de jeito diferente sobre a escola que aí está. Acredito que, para isso, a energia e a emoção fazem toda a diferença!
    É muito curioso perceber que não somos nós que definimos os rumos que a vida toma. A vida segue e leva-nos com ela por estranhos caminhos. Assim foi comigo. Primeiro, a magia de ser professora desde muito jovem. Depois, o curso de Letras por gostar de ler e de escrever. Então, a paixão pela avaliação. Entrelaçaram-se os caminhos, definiu-se o destino. Próximo à aposentadoria da UFRGS, já havia publicado seis livros sobre os temas avaliação e Educação Infantil. E de escritora, por um convite desse mesmo destino, tornei-me editora de livros para professores. No cruzamento de minhas vivências, somadas à emoção por vivê-las, tornei-me, pois, educadora, escritora e editora. 
    Hoje, exercendo a difícil tarefa de coordenação editorial na Editora Mediação em Porto Alegre, meu ponto de ancoragem é a firme convicção de que a leitura é um dos pilares essenciais para a educação de um povo, crucial na formação de professores – tema que abordarei em mais de um capítulo deste livro. Penso que editores são guardiões da cultura de um país à medida que garantem a difusão de bons textos e, por meio deles, os escritores de uma nação, a língua culta, a evolução científica, os valores sociais e humanos de cada época. Ser editora de livros para professores, desde 1996,vem sendo uma tarefa muito envolvente que permeia e fortalece o meu trabalho como consultora educacional no país e no exterior. 
    "O que alguém fala e escreve e como fala e escreve, tudo é expressão objetiva do seu espírito", diz Ernani Maria Fiori (in Freire, 1987, p. 12). Assim, espero que esta série de artigos e entrevistas, escritos um a um em diferentes tempos, me ajude a dialogar de coração aberto com o leitor sobre o que penso e defendo para a educação, sobre algumas indignações e muitas esperanças. 
    Estarei torcendo para que professores, coordenadores, gestores e pais/educadores encontrem razões para aqui chegar e ficar, para concordar e discordar, para indignar-se, para sonhar. 
    Ficarei no aguardo, sobretudo, dos interlocutores para esse diálogo que ora se inicia. 
    Jussara Hoffmann

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